quinta-feira, 11 de maio de 2017

PADRE CASTRO

PADRE CASTRO (ANTÓNIO ALVES PEREIRA DE CASTRO)

(5-12-1894/2-5-1949)


Padre Castro

Em meados de 2009, indicaram-me o Dr. José Pinto, entretanto falecido, morador, então, na Travessa do Padrão, em Sobrosa, que me revelou peripécias, muitas delas inseridas no livro por si editado, intitulado "Sobrosa - História e Património", sobre os ascendentes do Padre Castro.
« (...) Natural de Freamunde, Bernardino Pereira veio casar à casa da Boavista, Sobrosa, em 22 de Novembro de 1868, com Bernarda Alves Moreira, filha de Manuel Alves Moreira e de Maria Coelho Duarte, que, possivelmente, estariam na origem da construção da Casa da Boavista, em 1775, data que se encontra gravada no pedestal da cruz que ornamenta, juntamente com duas pirâmides laterais, a sua entrada principal.
Bernardino e Bernarda, já de meia-idade, por alturas do seu casamento - ele com 42 anos e ela com 41 -, não tiveram filhos, pelo que fizeram uma doação da Casa da Boavista a seu sobrinho, José Alves Moreira, mas, como usufrutuário, com certas reservas e condições: "Declararam os doadores que, se o doado fizesse casamento segundo aprovação deles, nesse caso, lhe cederiam no acto de tal casamento, o usufruto dos bens da Casa da Boavista e do Paço, que estavam sendo fabricados pelo caseiro, António Caetano..."
José Alves Moreira veio a casar, em 25 de Outubro de 1883, com Maria Francisca Gomes Pereira, natural da freguesia de Eiriz, Paços de Ferreira, que trouxe, como dote, três contos de réis que lhe foram dados por um tio que, ao tempo, vivia no Brasil.
Com a aprovação dos doadores, a Cada da Boavista passou a ser habitada pelo jovem casal, com o usufruto das suas pertenças, conforme o teor da doação.


Casa da Boavista, com séculos de existência, foi habitada pela família Alves Pereira até 16 de Março de 1972. A partir daí, passou para a posse do Dr. Acácio Alves Pereira, a residir com a sua família na Casa de Lourosa, em Mouriz, ficando a Casa a ser habitada pelos seus caseiros.

Como era habitual na época e dada a juventude do casal, ele com 25 anos e ela com 20, os filhos não se fizeram esperar, atingindo o número de dez».
Entre eles, o "nosso" António, quinto a vir ao mundo, depois de Joaquim, Fortunato, Felícia e Luzia, e antes de Mariana, Manuela, Cândida, Ana e Acácio.
António frequentou os primeiros estudos na Escola Primária de Sobrosa, sob orientação do professor oficial, Jacinto Ferreira Leal que marcou, pela sua competência, as crianças do seu tempo.
António Alves Pereira (de Castro) viria a ordenar-se sacerdote, tendo, primeiramente, desempenhado as funções de professor de matemática no Seminário dos Carvalhos, V.N. Gaia, onde leccionou durante alguns anos.
Seguiu-se a actividade pastoral, como coadjutor em Matosinhos, depois como pároco nas freguesias de S. Paio de Casais e Nespereira, do concelho de Lousada.
Este pastor espiritual, igualmente vocacionado para a indústria, foi, na "Fábrica Grande" (Albino de Matos, Pereiras & Barros, Ldª), um dos grandes impulsionadores do ramo mobiliário. Os tempos, dificílimos, não empolgavam mas eram propícios aos bons investimentos. Estávamos em 1923, período de grande desenvolvimento industrial. Dos 27 sócios, pertencia-lhe a quota de 68.000$00, correspondente a 9,7% do capital social, elevado para 700.000$00.




Inicia então uma rápida e calculada marcha para o controlo total da empresa. Como? Por mérito próprio, escudado na sua indiscutível competência laboral, da visão sobre questões económicas, por um conjunto de condições favoráveis.
Não era a Fábrica que crescia em todas as vertentes sectoriais: mobiliário escolar e hospitalar, marcenaria, serralharia, moagem, latoaria, carvoaria, serração, vidraria, colchoaria, drogaria...





Perfil empreendedor, dinâmico e sagaz, fixou os seus operários (chegaram a ser mais de 300, entre homens e rapazes, vindos de todos os lados, com manifesta falta de formação profissional, gente maioritariamente analfabeta não qualificada, recém chegada do campo ou a ele ligado, que aproveitava o Domingo - sim, Domingo, porque ao Sábado também se trabalhava. A semana "à inglesa" ainda não tinha chegado -, para os "biscates", noite dentro muitas vezes, de tamanqueiro, pauseiro, jornaleiro..., o que calhasse) em redor da unidade industrial, construindo cantina com quartos onde alojava técnicos especializados, oriundos de outros concelhos (Porto, Vila Nova de Gaia, Felgueiras, sobretudo da freguesia da Longra...), refeitório e um clube desportivo, "Os Onze Vermelhos", que daria mais tarde origem ao Freamunde Sport Clube. Um "Alfredo da Silva" em ponto pequeno!


Os "Onze Vermelhos"

De média estatura, p'ró gordo, muito (então aquela barriga bojuda!), não valia a pena persistir em organizar prescrições alimentares. Não. O que era posto à sua frente ia tudo! Um verdadeiro triturador de comida - os nacos vermelhinhos de presunto eram a sua perdição! -, capaz de fazer um suculento capão parecer um vulgar pintainho. É de crer, mesmo, que comia de pé pois não teria cadeiras com assento adequado ao seu traseiro.
Fumador inveterado, quase sempre vestido de escuro à padre de antanho, era um homem fantástico, com uma energia inesgotável, viciado em trabalho e que fazia dessa vocação o seu estilo de vida. Falava sem esforço mas exprimia-se... "axim".
Mais adjectivos para o qualificar?! Inteligente, filantropo, raposão, de humor fácil e corrosivo, vaidoso - perfumava-se constantemente... Mas forreta quanto baste.
Referindo várias fontes (antigos empregados, que comeram o pão que o diabo amassou, alguns com mais de oitenta, noventa anos, tentando fintar a morte, são a nossa memória viva. Este ou aquele já pouco recorda, outros têm os pensamentos cansados, confusos, distantes mas nostálgicos... Também há os que não querem sequer ouvir falar desses tempos), o padre Castro, para evitar aumentos - de longe a longe lá vinha mais um "centavo" e viva o velho! -, "jogava" com hipotéticos despedimentos. Como a procura era superior à oferta devido à escassez de agentes empregadores no sector industrial, o remédio era aceitar, sem levantar cabelo, o ordenado que lhes davam (em 1938, 14$00 por dia, em média), números baixos, mas que mesmo assim aliciavam muitos operários que fizeram da "Fábrica Grande" o local de uma vida no "mundo" do trabalho, abdicando de tudo: liberdade, cultura e descanso.
Tempos em que proliferava a mão de obra infantil; os meninos, que representavam uma percentagem impressionante da força de trabalho industrial, logo que saíam da escola (os que haviam frequentado a escola), iam laborar para a Fábrica - fugiam, como "ratos", sempre que apareciam os "fiscais". Só era permitido trabalhar, 8 horas por dia, com 12 (!) anos feitos (D.L. nº 24402 de 24/8/1934).
Fosse como fosse, os "tostões" que caíam ajudavam, e muito, ao sustento de vários lares, onde imperava uma miséria franciscana. Era a verdade nua e crua.




Exigente, também. Era capaz de se misturar com o operariado, de contar anedotas, mas duro e frio nos juízos, firme e implacável na disciplina. Encarnava o chefe como figura autoritária. Indivíduo que não se deixava guiar demasiado pelas emoções. Diz, quem com ele privou e trabalhou, que nem ao melhor amigo perdoava entradas tardias, logo que o canudo chamava para a luta pelo pão. Minuto que fosse. Lá ia meio dia para o "galheiro"! Não havia tempo, sequer, para trincar a bucha. Flexibilidade era adjectivo que não fazia parte do seu dicionário
Mas foi assim - outras épocas! - que a indústria do mobiliário prosperou e o nome de Freamunde correu mundo, com proveito, desenvolvimento e nível social e económico.
A "ALBAR", assim também conhecida, com depósitos no Porto, Vila Real, Mirandela, Águeda, Leiria e Lisboa, mobilou as principais escolas e liceus do país e colónias, sendo premiada nas Exposições da Palácio de Cristal (1º prémio) e do Rio de Janeiro (Grande prémio).
Acérrimo defensor dos interesses freamundenses, o padre Castro foi suporte generoso de algumas instituições locais, em notória crise (a Banda de Música, por exemplo), a quem emprestava amiúde dinheiro, mesmo cobrando taxa de juro à razão de 8% ao ano. 
Influente em todos os sectores da vida pública, tinha o "mundo" nas mãos.
Não viveu muito tempo - morreu com 54 anos, na força da idade, por volta das 6 horas da manhã do dia 2 de Maio de 1949, na sua casa de Vilar, vítima de pneumonia -, mas... atravessou duas guerras mundiais.
Foi a sepultar no cemitério de Sobrosa, de onde era natural, constituindo o seu funeral uma enorme manifestação de pesar.





De grande reconhecimento público, homem de convicções graníticas e de uma personalidade que o levou a semear alguns inimigos mas também uma legião de admiradores, com uma vida assinalada por alguns episódios que o colocaram em posição nebulosa (ainda hoje o seu bom nome é motivo de alguma controvérsia), ficará, contudo, eternamente na nossa recordação, na nossa memória.
O Clube de Futebol, os Bombeiros Voluntários, o Museu do Móvel, uma avenida com o seu nome (Começa na Rua Prof. Albino de Matos e acaba na Rua Nova de Abrute), estão entre as marcas que o tempo jamais apagará.


Descerramento da placa, que deu nome a avenida, pelo sobrinho, Dr. Acácio. 




Histórias do Padre Castro
(Personalidade com sentido único de Humor)

O Padre Castro media
uns três metros e noventa
de barriga e já não via,
há anos, a ferramenta.

Um dia estava a "mijar"
e um rapazito atrevido,
pôs-se do lado a espreitar
aquele monstro esculpido.

Mas ele olho perspicaz
foi perguntar ao rapaz:
- Tu viste-me o "realejo"?!

- Vi. - Pega então dez "paus", pá
e diz-me como ele está
que há muito que não o vejo!


Rodela