quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

FEIRA DOS CAPÕES OU DE SANTA LUZIA (1)

REFERÊNCIAS




Antigamente, a este colorido cartaz afluíam  milhares de forasteiros (agora, fruto dos tempos, já não é bem assim), oriundos, sobretudo, da região norte, atraídos por um evento único no País. Só aqui, em Freamunde, na Feira dos Capões, o eunuco imperou, impera (até quando?) e a vai justificando.



No dia 13 de Dezembro, cá tínhamos em abundância capões, perús, (os "reis" da festa"), patos, gansos..., aves estendidas em redor da capela de Santo António onde os crentes veneravam a milagrosa imagem de Santa Luzia. Vendia-se toda a gama de vestuário. As tendas proliferavam, recheadas de cobertores da Serra da Estrela, samarras, capotes e tamancos, para os rigores do Inverno que espreitava; alfaias agrícolas, mel, produtos hortícolas..., enfim, um sem número de utilidades sem esquecer as barracas de comes e bebes, os "trameleiros" dos contrabandistas e os vendedores da "banha da cobra".  
E é duma senhora simpática, de ar jovial, cabelo louro oxigenado (nunca a conheci doutra forma), que comercializou durante anos a fio o famoso produto, sempre junto ao Cruzeiro, que me vou debruçar. Comercializou, porque já não comercializa. Faleceu há aproximadamente três anos.


Vendedora astuta, com oratória estruturada, convincente sobre os efeitos do xarope milagroso, ao grupo de incautos entretanto seleccionados, gente "antiga", facilmente lhes criava a ilusão de que a bicha solitária, com 52 metros de comprido, visível no frasquinho exposto mesmo ao lado, tinha sido expelida dos intestinos de um vizinho que correra Ceca e Meca sem conseguir debelar a crise que o atormentava. As constantes aflições do reumatismo, ciática, verrugas desapareciam com 5 ou 6 aplicações de uma pomada toda feita de plantas medicinais, de acção rápida e eficaz, que não custava nem 30, nem 20, nem 15! Quem levasse duas embalagens pagava apenas 10 euros e ainda levava outra totalmente de graça.
A maioria da clientela, de quem  nunca precisou de fugir, comprava sem pensar, sequer precisar, mas comprava. Sempre iludida mas todos os anos comprava.
Se é certo que a dita pomada não curava, também não consta que daí tenha vindo mal ao mundo.
Hoje passei pelo "Cruzeiro" e lembrei-me da "Senhora". Até agora insubstituível, faz falta à Feira.