sexta-feira, 9 de março de 2018

"SANTA MARTA"

SALVADOR FERNANDES DA SILVA "SANTA MARTA"

1875/29-8-1952




Resultado de uma investigação lenta e minuciosa de um naipe de documentos, das memórias frescas de alguns familiares, de conversas informais, é possível apresentar uma pequena mas interessante biografia do "artista", da figura apaixonante, que Freamunde carinhosamente adoptou: Salvador Fernandes da Silva, mais conhecido pelo nome de "Santa Marta", dada a naturalidade (Portuzelo - orago: Santa Marta -, Viana do Castelo) de seu pai, António Fernandes da Silva, membro de família conservadora, arreigada a tradições religiosas, proprietário e senhor de pequena fortuna amealhada no país que Pedro Álvares Cabral descobriu.


António Fernandes da Silva "Santa Marta"

No regresso de terras de Vera Cruz, em navio a vapor, o "brasileiro" viu-se aflito com uma tempestade marítima que o levou a implorar ajuda divina, prometendo, caso chegasse em salvamento ao Porto - cidade onde atracou -, casar com uma rapariga de origens modestas e pobre de rendimentos. Assim aconteceu.
Iria conhecer Rosa Eudócia de Jesus, também conhecida por Rosa Maria de Pinho, natural de Castro d'Aire - Viseu, servente na pensão onde se havia instalado. Do namoro ao casamento foi um ápice.
Do enlace, nasceram, na freguesia do Bonfim, os filhos Manuel, Amândia, Francisco e o "nosso" Salvador, que cresceram e viveram num estilo de vida faustoso, que conseguia sonhar qualquer um, onde nada lhes faltava. Manuel e Salvador acabariam por estudar Belas Artes, curso concluído com superior distinção.
Com a morte prematura e repentina do pai, aos 42 anos, quando este se preparava para sair, em passeio, com os filhos, Salvador casa-se com Emília Ferreira da Silva, natural de S. Paio de Casais - Lousada, que trabalhava na Cidade Invicta, rapariguinha meiga, dócil, carinhosa e bondosa. Passaram, então, a morar na Rua 24 de Agosto.


Emília Ferreira da Silva

Os filhos, em número de seis, não se fizeram esperar: Zulmira, Ludovina, António, Maria José, Manuel e Maria de Lurdes.
Entretanto, a esposa adoeceu e os médicos indicaram-lhe, como terapia para a recuperação, os ares saudáveis da aldeia. Imprevistos numa vida aparentemente fácil, despreocupada.
Recordemos então o périplo: primeiro assentaram arraiais em Lousada, seguiu-se Santa Eulália da Ordem e por fim Freamunde.
Calvário, S. Francisco, Leigal (duas vezes) e Igreja, foram lugares onde alugaram residência.
Freamunde terá sido, certamente, o chão onde redobrou inspiração, onde trilhou fases marcantes, onde deixou escola, prestígio e consagração. A Terra, era um sítio de oportunidades, a imagem do progresso, do desenvolvimento, atraindo muitas pessoas em busca de trabalho e de algo mais.
Salvador caiu como sopa na mel. Leal para quem o rodeava, expansivo, folgazão, não foi difícil encontrar amigos por aqui. O destino tem destas coisas!
Salvador "Santa Marta": escultor (cultivou um estilo próprio, trabalhando preferencialmente o gesso. Executou com perfeição peças em retábulos, imagens de culto); pintor (a pintura a óleo sobre tela, veludo e cetim, expressava a natureza morta, motivos de caça e quadros de flores, uma das direcções fundamentais do estilo barroco. Nas abóbadas e cúpulas das Igrejas, a Apoteose dos Santos, a vida de Cristo, os Sacramentos da Eucaristia... A temática era, pois, fundamentalmente devota, como devoto ele era, dado que muitas das suas pinturas adquiriram conotações simbólicas de tipo religioso mas nunca profanas, sequer mitológicas); decorador, dourador, cenógrafo, caracterizador... Ele tocou várias artes, e portanto reuniram-se vontades na mesma pessoa, coisa rara nos dias de hoje.


Escultura em gesso


Natureza morta



Natureza morta

O teatro era um bocado de si, o escaparate das artes plásticas.
A função sócio-cultural nesse tempo - sobretudo no pós Grande Guerra de 1914/1918 - continuava limitada. Freamunde, porém, era um povo de "representadores". Faltava, isso sim, quem lhes administrasse conhecimentos através da encenação.
"Santa Marta", espírito profundamente observador e crítico, era pau para toda a colher.
Em épocas de alguma instabilidade - entre 1924 e 1938 - "rivalizou" com Leopoldo Pontes Saraiva na direcção técnica da "Troupe". Havia-lhe tomado o gosto, ainda no Porto, no seio do Grupo Cénico "Os Simples", juntamente com o irmão Manuel.
Algumas das peças por "Santa Marta" ensaiadas: "Nossa Senhora da Bonança"; "O Amor Constipado"; "Páscoa Florida"; "Castanha e Companhia"; Os Dois Pretos"; "Rosas de Portugal"...
Esforçou-se por manter um elenco de qualidade em que num naipe de experimentados se integraram aqueles que iniciavam os seu primeiros passos.
No teatro - disseram-no sem receio - também deixou bem assinalada a sua passagem, marcando com forte personalidade, um lugar de honra, sobejamente merecido.
Altruísta, no intervalo dos espectáculos pintava quadros que eram leiloados. O produto da venda revertia em favor dos cofres da benemérita Associação dos Socorros Mútuos Freamundense.


ASMF

Salvador "Santa Marta" legou-nos inúmeros trabalhos artísticos. O estudo do arranjo urbanístico, viário e ambiental do Centro Cívico, desejo ardente do pioneiro da indústria de marcenaria, António Pereira da Costa, "cego" de entusiasmo, que não se furtara a custear tal plano, mas que nunca chegou a ser executado, mesmo adquirindo visibilidade inédita (a edilidade pacense andava sempre de "nariz torcido" com os interesses dos freamundenses), começou a ser planeado com base num risco de "Santa Marta".
Dele, igualmente - conforme pesquisa de Vieira Dinis -, «...volátil trabalho de restauro no altar-mor da capela da Trindade - Meixomil, aí por 1945. Ele achara enigmática a composição sacra do Grande Mistério e entendeu substituí-lo pela simbologia presente: por terceira pessoa divina o Espírito Santo , representado por columbina alva a romper para o Céu».
O trabalho de conservação e restauro tem as suas técnicas e também os seus segredos.
«O meu pai "dava vida" às peças em restauro - exultava a filha Maria de Lurdes, na "juventude" dos seus 96 anos. Ele corrigia deformações provocadas por factores ambientais ou mão humana, utilizando métodos próprios. E foi a intervenção da mão humana que permitiu a perda de exemplares maravilhosos de arte sacra, na Igreja Matriz de Freamunde, já na década de sessenta, se não estou em erro. Foram "safados", do tecto, quadros de rara beleza como a imagem de Nossa Senhora da Assunção e a criação de modelos únicos: o cordeiro, a hóstia, o cálice...».
Mesmo extra-muros, bem longe, muito mérito do seu trabalho, quer por pureza de Arte quer por criatividade pessoal, pois a sua extraordinária habilidade permitia-lhe plasmar qualquer conceito e ideia.
Por exemplo, foram dele as pinturas, que ainda perduram, do tecto da Igreja de Tuías, com os 12 apóstolos. Trabalhos demorados também em quase todas as freguesias do Marco de Canavezes e Vila Real. Curiosa a forma como se auto-denominava nas facturas que passava aos clientes: Mestre de obras diplomado.
Apesar das suas raízes físicas estarem no Porto, foi em Freamunde que expressou toda a gama dos seus recursos culturais e artísticos, mesmo nunca tendo valorizado a promoção do seu trabalho. A  Terra, porém, ficou mais rica e está-lhe eternamente grata.
No entanto, a melhor forma de homenagearmos "Santa Marta" não é fazer o seu louvor mas publicar as suas obras, riquíssimas, e dá-las a conhecer aos mais distraídos.
Como? Juntá-las e expô-las numa casa aberta à cidade, aos freamundenses, aos amantes da cultura. É que podemos correr o risco de quase tudo o que "Santa Marta" nos legou não sirva para nada ou para muito pouco.
Com dignidade, portou-se a direcção do Clube Recreativo ao nomeá-lo seu sócio honorário.
Depois de enviuvar, Salvador Fernandes da Silva escolheu para companheira, Alexandrina Machado de Sousa. O matrimónio foi contraído no dia 18 de Dezembro de 1946.
Viria a falecer, vítima de doença prolongada, no dia 29 de Agosto de 1952.
Pelas comemorações do Cinquentenário da Vila de Freamunde, a Comissão de Toponímica atribuiu o seu nome a uma das artérias: Rua Pintor Santa Marta - começa na Rua Brigadeiro Alves de Sousa e acaba em Freamunde de Cima, junto ao Largo Costa Torres.


Descerramento de lápide que deu nome a rua