quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

FEIRA DOS CAPÕES OU DE SANTA LUZIA (1)

REFERÊNCIAS




Antigamente, a este colorido cartaz afluíam  milhares de forasteiros (agora, fruto dos tempos, já não é bem assim), oriundos, sobretudo, da região norte, atraídos por um evento único no País. Só aqui, em Freamunde, na Feira dos Capões, o eunuco imperou, impera (até quando?) e a vai justificando.



No dia 13 de Dezembro, cá tínhamos em abundância capões, perús, (os "reis" da festa"), patos, gansos..., aves estendidas em redor da capela de Santo António onde os crentes veneravam a milagrosa imagem de Santa Luzia. Vendia-se toda a gama de vestuário. As tendas proliferavam, recheadas de cobertores da Serra da Estrela, samarras, capotes e tamancos, para os rigores do Inverno que espreitava; alfaias agrícolas, mel, produtos hortícolas..., enfim, um sem número de utilidades sem esquecer as barracas de comes e bebes, os "trameleiros" dos contrabandistas e os vendedores da "banha da cobra".  
E é duma senhora simpática, de ar jovial, cabelo louro oxigenado (nunca a conheci doutra forma), que comercializou durante anos a fio o famoso produto, sempre junto ao Cruzeiro, que me vou debruçar. Comercializou, porque já não comercializa. Faleceu há aproximadamente três anos.


Vendedora astuta, com oratória estruturada, convincente sobre os efeitos do xarope milagroso, ao grupo de incautos entretanto seleccionados, gente "antiga", facilmente lhes criava a ilusão de que a bicha solitária, com 52 metros de comprido, visível no frasquinho exposto mesmo ao lado, tinha sido expelida dos intestinos de um vizinho que correra Ceca e Meca sem conseguir debelar a crise que o atormentava. As constantes aflições do reumatismo, ciática, verrugas desapareciam com 5 ou 6 aplicações de uma pomada toda feita de plantas medicinais, de acção rápida e eficaz, que não custava nem 30, nem 20, nem 15! Quem levasse duas embalagens pagava apenas 10 euros e ainda levava outra totalmente de graça.
A maioria da clientela, de quem  nunca precisou de fugir, comprava sem pensar, sequer precisar, mas comprava. Sempre iludida mas todos os anos comprava.
Se é certo que a dita pomada não curava, também não consta que daí tenha vindo mal ao mundo.
Hoje passei pelo "Cruzeiro" e lembrei-me da "Senhora". Até agora insubstituível, faz falta à Feira.


quarta-feira, 12 de julho de 2017

CLUBE RECREATIVO FREAMUNDENSE

CLUBE RECREATIVO FREAMUNDENSE

"BREVES PINCELADAS"




Após prolongada doença, esperava-se a todo o momento a notícia da morte sofrida, dramática do Clube Recreativo. O caso não seria para menos:  sem associados, ou com poucos (a certa altura deu-se o "êxodo" dos "fregueses" mais desfavorecidos financeiramente e, gradualmente, o desaparecimento físico de muitos dos "habitués"), sem direcção, sem os fins a que se destinou... Iria mesmo dar-lhe a "breca", o Clube iria morrer abandonado, sem assistência nem editais distribuídos pelos locais do costume, sem velório, cerimónias fúnebres, sequer funeral por manifesta falta de recursos do "falecido"?
"Uf"!... Nesta terra, de vez em quando, acontecem alguns "milagres". Sensibilizado por amigos, que são para as ocasiões (os que ainda por lá andavam, uma minoria, a baterem cartas nas mesas gastas pelo tempo ou a tacarem no bilhar de "snnoker"), lá apareceu alguém, o Eng. Rui Leal, proprietário da fracção, que, num simples estalar de dedos, se "doutorou" em medicina e encontrou o remédio para atenuar a dor e aumentar a esperança de vida deste fragilizado Clube Recreativo, reconstruindo o espaço, em avançado estado de degradação, uma autêntica operação plástica que o vai certamente rejuvenescer com o auxílio de novos associados, muitos deles "recrutados" mesmo ali ao lado.
Está, assim, recuperada a tradição de um Clube activo desde 1926 mas que, infelizmente, não possuía arquivo compatível com o seu longo e honroso passado.
No entanto, aceitei, mesmo que em traços breves, limitado pela inexistência de suficientes elementos de trabalho, compilar algumas páginas da história desta quase centenária Instituição local, com o rigor possível, entrega e alguma paixão.
Para a elaboração do estudo socorri-me  dos elementos dispersos em documentação avulsa (sobretudo actas das assembleias gerais), em colecções fotográficas espalhadas nos álbuns do próprio Clube, na leitura de páginas de antigos periódicos concelhios e regionais e na memorização de depoimentos de sócios que durante décadas sempre acompanharam o pulsar do seu quotidiano. Um avivar de saudade dos mais velhos, um despertar da curiosidade dos mais novos.
E tudo começou assim:

FUNDAÇÃO
No dia 16 de Outubro de 1926 (meses antes, o país arrancava politicamente para um novo ciclo, após o derrube da Primeira República, instaurada que foi a ditadura pelo golpe militar de 28 de Maio), a convite de Serafim Moura, Agostinho Mendes, Ernesto Taipa e Adolfo da Costa Machado, reuniu, na moradia de João Correia da Fonseca, no lugar da Feira, um grupo de cidadãos locais (42), no intuito de ser colmatada uma lacuna existente na freguesia: a constituição (por proposta de Adolfo da Costa Machado, aprovada por unanimidade) de uma associação ou sociedade recreativa, para reunião, cultivo e diversão de freamundenses interessados, através de jogos lícitos, sobretudo de cartas (mais tarde apelidados de "baratos") e leituras morais e educativas.
O presidente da mesa da Assembleia Geral, Joaquim Augusto Pereira Gomes, ali constituído, fez-se secretariar por João Correia da Fonseca Júnior e Agostinho Mendes Leal, que delegaram os desígnios da Associação (CLUBE RECREATIVO FREAMUNDENSE), com sede estabelecida no salão superior de um prédio, pertença de Ernesto Gomes Taipa, no Alto da Feira - há indícios de que os convívios iniciais tiveram lugar numa casa em S. Francisco -, nos membros que iriam compor a primeira direcção provisória:
Presidente: Ernesto Gomes Taipa
Secretário: Adolfo da Costa Machado
Tesoureiro: Serafim da Silva Moura
Vogais: Agostinho Mendes Leal e Henrique Felgueiras da Silva.


Ernesto Gomes Taipa

PRIMÓRDIOS
Não tardaram as primeiras deliberações: no acto da admissão de associados, os mesmos eram sujeitos a quota ou jóia no valor de 20$00 (vinte escudos).  Aos sócios mais carentes financeiramente, o prazo de pagamento foi-lhes prorrogado por 30 dias. A quota mensal ficou definida em 2$00 (dois escudos) - quota essa que, conjuntamente com a jóia de entrada, iria sofrer ajustes, alguns substanciais, com o decorrer dos anos.
Em Assembleia Geral Ordinária, agendada para o último dia do ano da fundação, por proposta de Libório Pinto, escolhido no seio dos presentes para presidir à sessão, face ao exemplar trabalho desenvolvido até então por todos os elementos directivos, o mesmo elenco foi aprovado por unanimidade e aclamação para dar continuidade à gestão durante o ano de 1927.
O saldo apurado no exercício financeiro cifrava-se em 503$70. Tinha-se verificado uma receita total de 1.480$00, sendo a despesa de 976$30. Nada mau.
Resolvida, ainda, a constituição de uma comissão, composta pelos membros da direcção actual, conjuntamente com os associados Luís Gabriel Marques da Costa e Bernardino Ferreira Rego, para a resolução dos casos considerados de "força maior": admissão ou demissão de qualquer sócio.
Não se pense, contudo, que o Clube era de pendor exclusivamente elitista. Longe disso. Frequentava-o a "boa" sociedade, de diferentes classes, sujeita, isso sim, a um veredicto final após proposta apresentada e apreciada por "residentes" nomeados para o efeito. É certo que o espaço não servia a "todos". Apenas aos que possuíam algum desafogo financeiro. A maioria da população era pobre, imperava um forte espírito rural no seu seio. O dinheiro que amealhava mal chegava para o pão sobre a mesa.


Grupo de sócios do Clube recreativo posam para fotografia após passeio

As direcções continuavam provisórias. Só em 1929, após a elaboração dos Estatutos da Associação, de que se incumbiu o sócio Joaquim Pinto Pereira Gomes, os novos orgãos sociais ficaram constituídos por 12 membros, distribuídos pela Assembleia Geral, Direcção e Conselho Fiscal - mais tarde a Direcção passaria a ser formada por 7 elementos, conforme preceituava o Artigo 5º dos referidos Estatutos -, a partir de então propostos obrigatoriamente a eleição no terceiro Domingo de Dezembro de cada ano, estabelecendo-se, 30 dias após, aproximadamente, uma sessão ordinária para a tomada de posse dos novos corpos gerentes, aprovação de actas, e leitura, discussão e votação do relatório e contas do exercício anterior, precedido do parecer do Conselho Fiscal. Tudo direitinho.
Uns bons anos após (1962), foi deliberado proceder-se à organização de Regulamento Interno, a cargo de Fernando Eduardo Santos.

INICIATIVAS
Nos princípios da década de 30, a vida do Clube não se ressentiu muito da crise existente, da desfavorável conjuntura económica, social e política.
De tal forma que, sendo o espaço também de tertúlia, onde se abordavam os mais diversos temas, sempre "virados" para o progresso de Freamunde,  no dia 19 de Março de 1930 foi criada a comissão de melhoramentos da Terra (a "luz" que iria movimentar vontades para o seu desenvolvimento), liderada pelo carismático sócio, Leopoldo Pontes Saraiva, capaz promotor da elevação cultural de Freamunde, burgo que com gostoso prazer o adoptou como um dos filhos predilectos - Leopoldo Saraiva era natural de Azurara, Vila do Conde. Criador, inclusive, num dos mandatos por si presidido (1934), de uma Biblioteca, de alcance social transcendente; de um arquivo que devia ser precioso de recordações, quase todo destroçado pela acção do tempo, pela mão do... homem. Falta saber onde foi parar grande parte do seu património. E se "tudo" fosse guardado numa sala, tipo museu, que perpetuasse  a história possível das nossas associações, muitas por sinal? Adiante...
Num ápice, passaram das intenções aos actos: Ajardinamento do Largo de Santo António; incentivo à criação da primeira Corporação de Bombeiros, com êxito. 


1º Quartel, em S. Francisco, e 1º Carro da " bomba"

Foi do Recreativo que surgiu a ideia e o esforço para o nascimento da Corporação e o convite, constante, a vários instrutores que exercitaram com  saber e disciplina os voluntários freamundenses. Referência especial para Eduardo Vila Pouca, segundo comandante dos bombeiros de Vizela,  pelos serviços prestados à nossa Associação Humanitária, mais tarde (1936) nomeado sócio honorário do Clube Recreativo, sempre grato e reconhecido. Tanto assim que, noutro âmbito, já havia proposto, anteriormente, para sócio benemérito da Associação, António Rodrigues de Carvalho, da cidade do Porto, por materiais oferecidos, sobretudo tintas, essenciais para as obras efectuadas na sede social.
Em Agosto do citado ano de 1930, aventou-se a hipótese de extinção das comarcas de Paços de Ferreira e Lousada, e a formação de um concelho em Freamunde. Uma delegação de "homens" desta Terra, a maioria sócios do Clube, deslocou-se, para o efeito, a Lisboa. Ilusões frustradas. Ficou, no entanto, a intenção. A vontade.
O desejo, a "fama" dos freamundenses sempre lutarem pela sua independência  já vem, como se depreende, de longe. Tal como o... "Constantino".
A "vida" da Associação continuava. As benfeitorias na Terra não paravam. Missão sempre revigorada pelo espírito forte e empreendedor de sucessivas gerações de associados do Recreativo. Tudo saía das suas ideias e iniciativas.
Por exemplo: no ano de 1935, foi concluído o Coreto do Largo de Santo António. A parte em pedra, até à primeira cobertura, foi custeada pelos sócios do Clube. O restante foi a expensas da Junta de Freguesia com subsídio do Estado. A direcção da obra esteve a cargo do arquitecto Narciso Garcia, de Negrelos. O empreiteiro veio da Vila das Aves, de nome Aristides, que integrava nos seus quadros o freamundense Aprígio "Rolha", da Gandarela, grande artista em cimento armado.
Também o lavadouro de Além foi inaugurado. 


Coreto

Em 1944 foi aprovada, extraordinariamente, quotização de 7$50 por sócio, no intuito de custear a cruz iluminada, aposta a uma outra da torre paroquial, cujas despesas importaram em 400$00.
Três anos mais tarde (1947), na coroação da imagem de Nª Srª de Fátima, a grinalda foi a expensas dos sócios do Recreativo.
A procissão foi presidida pelo pároco José Joaquim Moreira, também ele associado do Clube, o seu último acto público em Freamunde pois foi paroquiar, por sua expressa vontade, a freguesia de Paços de Brandão.




No dia 10 de Agosto de 1959, o Clube Recreativo, em memória ao seu malogrado sócio Ribeiro da Silva ( natural de Lordelo mas com coração freamundense, um dos melhores ciclistas nacionais de todos os tempos), instituiu um prémio monetário ao 1º corredor da Volta a Portugal a passar nesta localidade, encontrando-se a meta no Centro da Vila. O final da etapa estava marcado para a cidade do Porto. Agostinho Ferreira, do Académico, único ciclista do concelho presente nesta edição da Volta, foi o primeiro a cortar o risco branco, arrecadando assim o prémio monetário. As ruas desta Vila encheram-se de uma multidão ávida de ver e aplaudir os esforçados ares do pedal.


Ribeiro da Silva

ACTIVIDADES LÚDICAS
A prática do futebol oficial nesta freguesia tornou-se realidade em 1933, ano da fundação do Freamunde Sport Clube, inicialmente apelidado de "Onze vermelhos".
Pelado do "Carvalhal" disponível e aí tivemos, no dia de Reis, 6 de Janeiro de 1937, uma animada peleja entre solteiros e casados do Recreativo. Oportunidade para a rapaziada pôr em prática todas as potencialidades no jogo do pontapé na bola. O esférico (?), coitadinho, deve ter ficado num frangalho! 
Sob arbitragem de Jerónimo Faria, as equipas alinharam assim:
Solteiros: José Neto, Bernardino Rego, Bernardino Moura, Maximino Rego, José Rego, Mendes, Jaime Moura, José Maria Moura, Jorge Vasconcelos, Carlos Correia e Idalino Pacheco.
Casados: Henrique, Agostinho Mendes, Vasco Dias, Neca Costa, Joaquim Costa, Ernesto Taipa, Correia, Silva, Albino Leão, Adolfo Pereira e Arnaldo Alves.
Os solteiros, mais "frescos", não tiveram contemplações e golearam os distintos opositores por 5-0. Uma cabazada.
Este e outros tipos de convívio tiveram continuidade durante anos a fio.


1948 - Em cima: João Taipa, Domingos Taipa, Rogério Monteiro, Maximino Rego, Adriano Antero, Agostinho Machado "Barroco" e Amâncio Torres
Em baixo: José Maria Taipa, Zé "Baião", João Dias, Henrique "Baião" e António Moura



Em cima: Costinha "da farmácia", Maximino Rego, Humberto Pereira, Fernando Moura, António José Brito, Celestino Moura, Nelson Lopes, Domingos Ribeiro Taipa, Leonço Leão, José Rego e Fernando Santos
Em baixo: Zé "Baião", Júlio Sousa "da tipografia", Carlos Felgueiras, Aloísio Simão, Augusto "Pilar" e Alberto Graça


Em cima: Adalberto Ribeiro, Luís Leão, António Brito, Manuel Barros, Fernando Valente, Nelo Nunes, João Dias, Miguel Oliveira, Costinha "da Farmácia".
Em baixo: Alfredo Cardoso de Barros, Toninho Nunes, Toninho Ribeiro, Jorge Mendes e Valdemar Batista



Convívio na Santa Águeda


Convívio na Srª do Amparo



Convívio na Srª do Amparo

Tendo em vista a oferta de outras actividades, sobretudo de âmbito cultural, no almoço comemorativo do dia de aniversário (16-10-1941), José Gomes Rego foi louvado em acta por ter proporcionado ao maestro António João de Brito, excelente audição de acordeão. António João de Brito que iria reger durante vários anos, com elevada mestria, a Banda de Música de Freamunde.

SEDE SOCIAL
A direcção da "casa",  sempre sujeita a diversos trabalhos de restauro, aproveitou a efeméride de 16-10-1941 para apresentar as obras efectuadas na Biblioteca e registar reconhecimento aos sócios António Sousa, que gentilmente ofereceu a madeira para as reparações, e Adelino Correia da Fonseca, que dedicadamente as executou. Formulado, ainda, voto de gratidão a Ernesto Gomes Taipa, credor sem documentos do mesmo Clube, e que não exigiu juros durante os anos em que teve capital emprestado. Outros tempos!... Outros tempos!...

1ª Sede Social no Alto da Feira

Estas e outras iniciativas, como por exemplo a modificação, em 1944, da escada de acesso ao Clube, enquadravam-se no crescimento sustentado que o Recreativo tinha verificado no decorrer dos anos.
Enfim, o espaço já não chegava para as "encomendas". Daí, em 2 de Novembro de 1946, foi convocada Sessão Extraordinária para esclarecimento sobre a compra de um terreno adquirido recentemente pelo Clube, no intuito de lá ser construída uma nova Sede Social, com a seguinte identificação: um pedaço de terra inculta com um palheiro, formado por dois socalcos, com ramadas, sito no lugar de Xistos ou Pôça, desta freguesia, a confrontar do nascente com a Escola primária (Amarelas), da Rua do Comércio); poente com Dr. Alberto Cruz; norte com estrada nacional; sul com Amélia Gomes Pereira.
O terreno (1/3 do respectivo prédio rústico), com o comprimento de 23 mts e largura de 11 mts, foi comprado, com aprovação da maioria dos associados, por 90$00 o m2.
Depois de apresentado o projecto, foi constituída uma comissão auxiliar para estudo da construção do edifício: Dr. Alberto Cruz, António Joaquim Gomes da Costa Torres, José da Silva Moura, Agostinho Mendes, Ernesto Taipa, António Ferreira Alves Pacheco, Idalino Ferreira Alves Pacheco e Domingos Gomes Taipa.
Contudo, mais tarde, a construção do referido prédio iria ser inviabilizada por ofício da Câmara Municipal, que obrigava ao recuo de dez metros a partir da Escola primária.
Foi de imediato proposta a venda do terreno, adquirido pelo preço de aquisição por António Pereira da Costa.
Assim sendo, e não havendo no imediato outro remédio, procedeu-se a obras na velha Sede que constaram de cobertura de soalho com madeira de forro; substituição da escada, por ser em caracol e se encontrar em mau estado; substituição do tecto da sala principal; modificação do bufete.
Para o efeito, foi necessário contrair-se um empréstimo e aumentar as quotas para 5$00. As despesas importaram em 34.126$80.
O Clube só conseguiu reunir a verba de 23.126$80. O défice de 11.000$00 foi coberto pelos empréstimos de Arnaldo Gomes Taipa (8.848$46) e António Pereira da Costa (3.151$54).
Os juros cobrados foram à razão de 6% ao ano, uma ninharia para a época.
Seguiu-se um período em que, neste e noutros aspectos, a actividade do Clube poucas alterações significativas sofreu, a avaliar pelas notícias impressas nos jornais regionais de então.
Em 1959, devido ao desencanto de alguns associados, voltou à "baila" a aquisição de terreno para construção de Sede Social própria, podendo, assim, estender-se a actividade cultural com a promoção de saraus, récitas, conferências, teatro, cinema, exposições, ginástica...

O piano, ainda existente

Uma sala de desenho industrial, necessária para o operariado freamundense, estava também na mente de sócios ousados.
A  discussão deu pano para mangas, dada a quantia necessária para a primeira fase (200.000$00) ser considerada exorbitante, mesmo considerando as ofertas que eventualmente poderiam surgir de freamundenses radicados no Brasil, nas colónias e países espalhados pelo mundo. Ricardo Espírito Santo, Estado e Fundação Calouste Gulbenkian eram Instituições a quem, igualmente, se poderia recorrer.
Primeiramente, a aprovação do projecto tornou-se um facto. Foi deliberado o aumento das quotas para 10$00 e decidido contrair empréstimo de 200.000$00, junto da banca, com prazos de pagamento e juros a negociar.
Mais uma vez, a ideia foi abortada, mesmo tendo em conta as condições da actual Sede, exígua em termos de espaço e bastante degradada, não possuindo o Clube condições financeiras para as devidas obras de restauro.
Em cima da mesa ficou a hipótese de se alugar nova casa.
A primeira alternativa era o antigo prédio da Legião, propriedade de José Maria Gomes Taipa, a troco de 600$00 de renda mensal.
A maioria dos sócios não aprovou a proposta da direcção, ficando tudo como dantes.
Tempos após, ventilaram-se as casas de Dr. Cândido Barros e de Fernando Rocha, e uma outra de raiz, a construir pelo Dr. Fernando de Vasconcelos, todas no lugar do Largo da Feira.
Nomeada uma comissão para estudar o assunto, projecto "roto", novamente.
A Sede, por muitos "remendos" que sofresse, não satisfazia às necessidades primárias: espaço, conforto, higiene...
Tudo se resolveu, mas só em 1968. No dia 19 de Março, o Clube passou a ter, por arrendamento, nova Sede Social, agora na Rua do Comércio (hoje a servir o Núcleo Sportinguista de Freamunde), em frente à drogaria Brito.


Clube Recreativo: prédio à esquerda, piso superior






Por poucos anos, diga-se. Logo ali ao lado, nas actuais instalações, encontraram edifício moderno, com outras comodidades, e para lá mudaram as "trouxas", dinamizando o Clube através da instalação de jogos salutares, mormente os de tabuleiro, xadrez e damas, e ainda o ping-pong. 


Actual sede social (piso superior)

PATRIMÓNIO
A rádio apareceu em Portugal no segundo quartel do século XX. As primeiras emissões, em onda média, realizaram-se em 1932, pela então Emissora Nacional, fundada oficialmente em 1935, definida à imagem de congéneres europeias e concebida num quadro político interno e externo em que as rádios desempenhavam, sobretudo, um papel de veículo dos interesses do governo.
Curiosamente, no dia 9 de Abril de 1930, foi ouvida uma sessão de rádio (emissoras estrangeiras) na casa de António Augusto Guedes, retirado em Setembro para o Caramulo, proporcionada a alguns sócios do Clube Recreativo.
Presume-se que o referido António Guedes (quem era?) possuía residência noutra terra, pois a luz eléctrica só seria inaugurada, em Freamunde, no dia 13 de Junho de 1931.
Porém, foi preciso esperar-se 14 anos para que a direcção do Clube fizesse a primeira aquisição de rádio telefonia (1941), muito pela valiosa cooperação de Agostinho Mendes e Bernardino Moura. Arnaldo Gomes Taipa ofereceu os oleados, as peças metálicas para suporte vieram da "casa" de José da Silva Moura e o poste para colocação do rádio apareceu por acção de António Joaquim Ribeiro "Armador".
Rádio, nesses tempos, que apenas servia para entretenimento da população.

Rádio "Graetz Stereo"

A tecnologia avançava. A constituição da RTP - Radiodifusão Portuguesa, SARL - é feita a 15 de Dezembro de 1955. Tratava-se, portanto, de uma sociedade anónima, com capital tripartido entre Estado, emissoras de radiodifusão privadas e particulares. As emissões experimentais iniciaram-se em 1956, a partir da Feira Popular de Lisboa. No entanto, as emissões regulares, só se iniciaram a partir de 7 de Março de 1957.
A "caixa" que mudou o mundo entusiasmava, satisfazia os telespectadores, era mesmo uma obsessão, e, meses após, pelo sócio Maximino Ferreira Rego foi sugerida a compra, ideia corroborada por todos e que se impunha, de um aparelho a instalar no salão principal, já enriquecido com uma valiosa colecção de livros gentilmente oferecidos pelo Coronel José Baptista Barreiros. Para os amantes da leitura, também os jornais "O Comércio do Porto", "A Bola" e as Revistas "Século Ilustrado" e "Ridículos" ficaram ao dispor.
Porque o Clube não dispunha de verba suficiente para a aquisição do televisor, foi aberta subscrição, voluntária, entre os sócios . A primeira sessão, com a casa, já dotada de um primoroso serviço de bar, a rebentar pelas costuras, foi visionada a 20 de Fevereiro de 1958.




A televisão a cores só foi realidade no Recreativo em 1977.
Não tardou, também, proposta para aquecimento do Clube a "Gascidla", sobretudo na sala de jogo.  

ANIVERSÁRIO
Os festejos comemorativos do aniversário da Associação eram, primeiramente, abrilhantados pela Banda de Música local, sempre presente nos grandes acontecimentos. Porém, em 1928, os seus préstimos foram dispensados, atendendo a razões de vária natureza. Talvez os cofres estivessem fracos, sem o "vil metal", gasto na organização de almoço e passeio a  expensas da própria Associação. Mais tarde, estas iniciativas seriam precedidas de romagem ao cemitério e de missa por alma dos associados entretanto falecidos - o primeiro a perecer foi Jacinto Torres (7-1-1931) .


Romagem ao cemitério

Por alturas de funestos acontecimentos, a bandeira descia a meia haste, a Sede era encerrada e lavrado voto de sentimento com cópia extraída da respectiva acta e posteriormente enviada às esposas ou familiares mais directos.
No programa das comemorações do 4º aniversário do Clube Recreativo, uma surpresa: a inauguração da Bandeira. No hastear da mesma, a Tuna (Orquestra do Clube), dirigida por Joaquim Augusto Pereira Gomes, executou o seu Hino, tendo sido recitados uns versos alusivos ao estandarte verde escuro pela menina Ludovina da Costa Machado. Versos escritos pela inspiração do Dr. João Neto e mais tarde publicados no jornal "O Comércio do Porto".


"BANDEIRA"




Bandeira símbolo de glória
Como não há outra igual
Para exemplo vê-de a história
Do Pendão de Portugal 


Uma Bandeira alimenta
Um ideal definido
E a nossa fé representa
Tudo quanto foi vencido

P'ra vencer e triunfar
Como vós dessa maneira
Tereis sempre de abraçar
A vossa linda Bandeira


Se a vida vos causa horror
Através de uma ilusão
Buscai alento na cor
Na cor do vosso Pendão

Haja alegria na vida
O trabalho tudo alcança!
Nunca mais será vencida
A "Bandeira" verde esperança.


O desânimo entre os associados não esmorecia. Bem pelo contrário. O dia de aniversário, comemorado, nos primeiros anos, na sede do Clube, era sempre preparado com pompa e circunstância.


1951 - Jantar comemorativo das bodas de prata








Em 1956 (16-10), por exemplo, no jantar de confraternização, participado por 60 sócios, num clima de verdadeira alegria e entusiasmo, o convívio foi abrilhantado pelo acordeonista alemão Hans-Gunther Plath, director artístico da organização Cantúlia em Portugal. Aos brindes usaram da palavra o Tenente-Coronel Alves de Sousa, Reverendo José Joaquim Moreira ( entretanto transferido da paróquia de Paços de Brandão para Castelo de Paiva), Teixeira Bonito (gerente da Confeitaria Cunha, do Porto), Dr. Alberto Cruz, Dr. Fernando Cruz e Fernando Santos (Edurisa, Filho). 


Os filhos de Teixeira Bonito presenteiam os associados do Recreativo com uma sessão musical de acordeão e concertina.






Porém, em 1958, no dia da data do aniversário, a tristeza invadiu o Clube, deixando de "rastos" todos os seus associados, ficando, de imediato, suspensas as celebrações. Uma hora antes do jantar de confraternização, António Joaquim Gomes da Costa Torres tinha sucumbido, de forma súbita, fulminante.
«... É que (conforme descreveu o correspondente da "Gazeta") o  Antoninho Torres, como era respeitosamente conhecido em Freamunde, passara um dia absolutamente normal; minutos antes tinha estado em amena e alegre cavaqueira com os amigos; nada fazia prever tal desenlace!
A bandeira do Clube, jubilosamente subida ao topo do mastro, baixou lenta à posição de luto. As suas portas fecharam-se e tudo mergulhou no silêncio impressionante que caracteriza os severos momentos.
A figura de António Joaquim da Costa Torres era das mais queridas e respeitadas nesta Terra. Homem íntegro, carácter sem mácula, a todos cativava com a sua irradiante simpatia.
No funeral incorporaram-se todas as Associações locais e pessoas do maior destaque na vida do concelho».
Completado meio século de existência do Recreativo, as celebrações das bodas de ouro (16-10-1976), já com o País em transformação face à "Revolução dos Cravos", não tiveram o impacto desejado. Por circunstâncias várias, não houve sessão solene, onde deveriam ter sido homenageados os sócios fundadores e outras personalidades ligadas directamente a este Clube ao qual muito deram, entre eles o Dr. Alberto Cruz e António da Costa Torres. Foi ainda deliberada a aquisição de um livro de honra, onde foi lançada a acta referente ao cinquentenário.


1976 - 50º Aniversário - Corte do bolo pelos sócios mais antigos, alguns deles fundadores


E PRONTO...
Das celebrações das Bodas de Ouro até aos dias de hoje, pouco mais do que rotina, apenas quebrada com a "festa" dos 75 anos de existência do Recreativo.

























Uma Associação que ainda respira mas sem os fins a que inicialmente se destinou.
A partir de agora tudo vai mudar, para melhor, estamos em crer. O edifício vai adaptar-se a novas realidades, sobretudo do ponto de vista cultural e da vivência.
A herança é pesada mas interessa a todos. Portanto, mãos à obra.
Pela forma como foi feito este percurso histórico, um reconhecimento, final, à iniciativa e tenacidade dessa plêiade de entusiastas, sobretudo os HOMENS que contamos entre os fundadores do CLUBE RECREATIVO FREAMUNDENSE - sempre se tratou de um espaço masculino, de cavalheiros. Só nos convívios se "notavam" as "damas".






Por lá passou grande parte da vida económica, social e cultural freamundense dos últimos 90 anos. É muito tempo!
Seria uma tristeza se o Clube fechasse as portas.  


...Não fecha, não senhor!








quinta-feira, 1 de junho de 2017

"SANTANA"

Joaquim SANTANA da Silva Guimarães

(22 de Março 1936 - 24 Abril 1989)



Natural da cidade do Lobito, distrito de Benguela, Angola, foi, no entanto, no Sport Clube de Catumbela que Santana fez a sua formação.
O virtuosismo do futebol apresentado despertou a atenção dos responsáveis do Benfica, clube que o recebeu em 1954. Mas não chegou só. Acompanhou-o Daniel Chipenda, que vinha com o propósito de conciliar o futebol com os estudos. Chipenda estreou-se com o emblema da águia ao peito na vitória sobre o Atlético, na Tapadinha, por 5-0 (época 56/57). Dois dos golos foram da sua autoria. Anos mais tarde, já depois de ter servido a Académica, iria tornar-se, como militante anti-colonialista, guerrilheiro destacado nas lutas pela independência de Angola. 
A propósito, um episódio curioso, extraído das Publicações D. Quixote:
«...Daniel Chipenda, na cidade dos estudantes, andava já amanhado com o MPLA e teve uma surpresa: ao chegar de Amesterdão, após a épica vitória do Benfica perante o Real Madrid, por 5-3, no jogo da final da Taça dos Clubes Campeões Europeus (1962), Santana foi visitar o colega a Coimbra. Fizeram festa na República dos Milionários. Quando regressaram ao quarto disseram-lhes que tinha havido telefonema. Pensaram que era complicação. Meteram-se imediatamente no carro de Santana e partiram para Lisboa. Lá, descobriram que tinha sido o irmão de Chipenda a dizer que chegara de Angola. 
Mesmo assim, Daniel decidiu que o melhor era já não voltar a Coimbra.
A caminho da Figueira, a PIDE mandou parar o Fiat de Santana. Ele que nunca levava nada a sério, gritou-lhes: "Vocês sabem quem eu sou? Sou bi-campeão europeu, portanto identifiquem-se!"
Ficaram várias horas a torrar dentro do carro, sob prisão.
Nesse período de tempo, outra Brigada havia largado para o Lar do Jogador. Entraram de rompante no quarto de Santana, vasculharam tudo mas não encontraram nada. No entanto, dispararam vários tiros para o colchão, esfarelando-o, explicando que poderia estar lá o que buscavam.
Assim sendo, Santana foi solto. Chipenda, não. Foi parar aos calabouços.
Só depois de manifestação de estudantes, exigindo a sua libertação, a PIDE cedeu. Quando saiu da cadeia, Chipenda pediu que o mandassem para a tropa em Angola, mas "nessa" eles não caíram».
Com apenas 18 anos de idade, Santana jogou as duas primeiras temporadas nos aspirantes e juniores  encarnados. Nesta última categoria foi campeão nacional, passando a integrar  o plantel principal a partir da época 56/57, sob orientação do carismático Otto Glória. 
Campanha de grande esplendor benfiquista. O clube da "Luz" sagrou-se campeão nacional, conquistou a Taça de Portugal e foi finalista vencido da Taça Latina, ante o Real Madrid.
De fraco porte atlético, franzininho (1,72 mts de altura e 68 kgs de peso - só o bigode, que sempre preservou, lhe dava um ar mais maduro), mesmo hábil e com tiques de craque, o "menino" Santana teve dificuldades de adaptação, sendo apenas utilizado uma vez pelo técnico brasileiro, no decorrer da 6ª jornada (21 de Outubro de 1956), ante o Caldas, opositor que saiu derrotado por 1-0.




Nas épocas seguintes o cenário não mudou muito para o "molengão de Catumbela", assim alcunhado pelos colegas de ofício.
A própria equipa perdera o fulgor de tempos áureos e seria ultrapassada pelos rivais Sporting e Porto.
Surpreendentemente, ou talvez não, viria a "explodir" na época 59/60, já sob o comando do "feiticeiro" Belá Guttman, ficando ligado aos maiores feitos internacionais do clube encarnado, sobretudo a mítica final de Berna, Suíça, no Estádio Wankdorf (23 de Maio de 1961), com a conquista da primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus. O distinto opositor, Barcelona, saiu derrotado por 3-2, na noite que catapultou Santana para o estrelato.


Coluna, José Águas e Santana com a Taça dos Clubes Campeões Europeus

Para a Selecção Nacional, que representou por cinco vezes. A 1ª internacionalização aconteceu no dia 8 de Maio de 1960, no Estádio Nacional. A fortíssima selecção da Jugoslávia foi suplantada por 2-1, com golos de Santana (não esperou muito tempo para fazer o gosto ao pé) e Matateu.
Com  a vinda de Eusébio, Santana perdeu o estatuto de titular indiscutível e a partir de 64/65 a sua influência na equipa quase que desapareceu. Por lá ficou, no entanto, até 67/68, realizando o último jogo com o emblema da águia ao peito em 24 de Março de 1968, na "Luz" contra a Sanjoanense.
Ao serviço do Benfica, como sénior, em provas  oficiais internas, Santana conquistou sete campeonatos nacionais e duas Taças de Portugal. Sagrou-se, igualmente, bi-campeão europeu. Um registo fantástico.
Propalava-se, em surdina, que apoiava movimentos de libertação angolanos. "Espiado" e incomodado pela PIDE, foi "despachado", mas continuou a vestir de "vermelho", agora ao serviço do Salgueiros.
Foi então que apareceu o Freamunde.
Depois do título distrital conquistado na época 69/70, sob o comando de Rola, a recém nomeada direcção do clube do "Carvalhal" sentiu que era tempo também de viragem no comando técnico, necessidade de incutir emoção ao projecto idealizado, tentando, completamente obcecada, cega, num golpe de audácia, a contratação para treinador/jogador de Joaquim Santana. Era uma forma de injectar doses de paixão e qualidade que muitos diziam faltar.
Não foi fácil esta aposta por alguma renitência inicial do técnico, apenas convencido no final de um jogo de carácter particular, Freamunde/Fafe, integrado na festa de homenagem a "Barbosa", que os "azuis" venceram por 5-3, após fantástica exibição do seu quarteto maravilha de dianteiros: Couto, Abel, Venâncio e Ernesto.
Fafe, curiosamente, agremiação desportiva presidida pelo freamundense, Eng. Hercílio Valente, antigo guarda-redes da equipa "azul e branca", e que também estava interessada nos préstimos de Santana.
Ciente de que o plantel lhe daria todas as garantias, Santana não olhou para trás e de imediato pôs o "preto no branco".
O Freamunde - já possuía alguma "hegemonia" mas pouco dinheiro - acabava por abrir os cordões à bolsa e fazer um dos maiores investimentos da sua história.
O contrato, "das arábias", implicava o dispêndio anual de 106.000$00 (um terço, aproximadamente, do orçamento global), assim distribuído: 
Prémio de assinatura: 40.000$00
Remuneração mensal: 5.500$00
Uma loucura para os tempos que corriam!
Anos atrás, em 1962, por exemplo, ao serviço do Benfica, as verbas envolvidas na renovação de contrato pouco diferiam: 50.000$00 de luvas e 4.000$00 de remuneração mensal mais os respectivos prémios. Só Coluna e Eusébio estavam noutra dimensão.
A notícia, contudo, ainda não tinha "saltado" para o exterior. Só os directores eram conhecedores.
Nas "tertúlias", sobretudo nas imediações do Café Popular, propriedade do Américo "Caixa", bem perto do "Cruzeiro", ninguém acreditava! - Contrataram o Santana?... O ex-jogador do Benfica, bi-campeão europeu e internacional pela nossa Selecção?...Não, não pode ser!... 
Mas foi. O encanto pelo "angolano" tornara-se irresistível e a ideia foi avante.


Acto de assinatura do contrato

Santana surgiu como o novo rosto do futebol em Freamunde, Vila que "abraçou" e onde encontrou de novo a felicidade. Onde viveu com a mulher, Manuela, e criou os filhos, Paula e Joaquim.
Santana trouxe padrões muito próprios de organização e treinos de alguma intensidade física. Mas logo se resignou. A rapaziada era totalmente amadora, só podia treinar duas vezes por semana e alguns métodos foram irreversivelmente alterados. Mesmo assim, os primeiros passos foram dados definitivamente para a frente.
A própria "revolução" no futebol local começou no dia em que Santana proibiu, fosse quem fosse, de "invadir" o balneário em dia de jogo, como até aí era apanágio de certos "dirigentes". De convicções fortes não dava ouvidos - ou dava? - aos treinadores de bancada. Intransigente, preservou e blindou o grupo contra os "índios" do costume. Mudavam-se as mentalidades.
Sem ambições desmedidas, o ambiente era contagiante. Nunca se vira nada igual. Alguns treinos pareciam jogos, tantos os "curiosos" em volta do pelado.
Santana pegava na batuta  e afinava a orquestra. Além de "maestro" também "executava" com carícia.
Quando o vi pôr o pé numa bola pela primeira vez fiquei boquiaberto. Fascinado.
Ainda me lembro de uma aposta que Santana combinou, antes de um treino, com os jogadores presentes, sobretudo com Miguel, guarda-redes: fazer dez remates com a bola no chão, em cima da linha de grande área, e conseguir acertar dez vezes na trave da baliza. Resultado: dez tentativas, dez bolas na trave.
Toda a gente ficou pasmada a interrogar-se como seria possível uma coisa daquelas. Pois!...
Santana representava o jogador completo: à mestria da técnica aliava a elegância no jogar.
Mas, raios!, não ria, não chorava, pouco falava. Parecia tímido... Talvez homem de sangue gelado mas o coração bombeava futebol.
O campeonato da 3ª divisão Nacional estava à porta.
O capricho do sorteio determinou que visitássemos Viana do Castelo, cidade de rara beleza e acolhedora.
O plantel, desfalcado de Ernesto, mobilizado para o ultramar (baixa de vulto), dava garantias.
Os freamundenses acreditavam. Tanto assim que das 3.000 pessoas que se acomodavam em volta do terreno de jogo, 2.000 eram de Freamunde. O tempo estava solarengo, convidativo ao passeio. As camionetas - cerca de 50! - foram pejadas de adeptos. Pela estrada viam-se dezenas de automóveis, todos eles sem espaço para quem quer que fosse, com bandeiras tremulando ao vento. A "princesa" vestiu-se de azul, mas de Freamunde.
Na nossa Vila só restavam velhos e crianças. No Quartel dos Bombeiros implorava-se: oxalá não toque a sirene para incêndio ou acidentes!
É que "voluntários"... nem vê-los! Estavam todos para Viana.
O Freamunde ganhou por 1-0. O "mister" Santana deu o exemplo, facturando o golo da justa vitória que levou ao rubro a imensa mole humana.


70/71 - Em cima: Miguel, Ribeiro, Alves, Júlio "Guerra", Domingos "Faria" e SANTANA
Em baixo: Daniel Barbosa, Martinho, Augusto, Venâncio e Jacinto

Dos 42 golos apontados pela equipa, 9 pertenceram a Santana. 
E por cá continuou.
No final da época 71/72, Santana foi alvo de uma singela homenagem.
Convidado o Sport Lisboa e Benfica - logo confirmaram a presença dada a consideração de que era credor o seu antigo jogador - o "espectáculo estava garantido". Nem mais.




Do livro "Sport Clube de Freamunde - Vida e Glória", alguns fragmentos da "festa": «... Os lisboetas fizeram-se representar com um "misto" em virtude dos seus principais atletas se encontrarem no Brasil, ao serviço da selecção nacional, no Mundialito.
O "aparato" começou bem cedo. Afinal, sempre era o "grande" Benfica que nos dava o prazer da sua visita.
A delegação encarnada foi recebida à saída de Seroa por um cortejo de carros e outros veículos motorizados. Muitos foguetes troavam no ar. Seguiu-se paragem em Frazão onde o simpatizante encarnado, Manuel Coelho de Sousa, distribuiu uma rosca de pão-de-ló a cada um dos elementos da comitiva.
O "Carvalhal" rebentava pelas costuras.
O encontro aproximava-se do seu início e cá fora ainda se vendiam bilhetes. Simões, de braço ao peito, com blocos de ingresso na mão, "ajudava" o seu ex-companheiro de tantas tardes e noites de glória.
Com as equipas perfiladas, ouviu-se o "elogio" a Santana nas vozes do conceituado jornalista Álvaro Braga e do freamundense Fernando Santos, oradores incomparáveis, possuidores de uma fluência e de uma riqueza de imagem admiráveis.
O homenageado foi alvo de muitas manifestações de carinho e apreço. Da directoria benfiquista foi-lhe ofertada uma águia d'ouro.
Depois seguiu-se o tão ansiado jogo de futebol entre o Freamunde e o Benfica, arbitrado por Américo Borges.


Hermínio Pinto, representante dos benfiquistas de Freamunde, e prof. Alfredo Barros, presidente da Junta de Freguesia, entregam várias lembranças ao capitão encarnado, Malta da Silva


Equipa do Freamunde que defrontou o Benfica e respectivos dirigentes
Em cima: Miguel, Ribeiro, Fernando Viana, Jacinto (jogador do F.C. Porto), Fernando  Sousa Ribeiro, Abílio Ribeiro Gomes, António Silva Alves,  Rui Magalhães "Guitú", Abílio Freire
Em baixo: Rolando (jogador do F.C. Porto), Justino "Guerra", SANTANA, Couto, Ernesto, Jaime Gomes, Fernando Moreira e Yaúca (jogador do Lourosa. Yaúca também representou o Benfica e era conterrâneo de Santana pois nasceu em Catumbela.


Equipa do Benfica que defrontou o Freamunde
Em cima: Dirigente do Benfica (?), Malta da Silva, Barros, simpatizante do Benfica , Rui Rodrigues, Victor Martins e Zeca
Em baixo: Eurico, menino simpatizante do Benfica (?), Franque, Diamantino, Carlos Pereira, João Alves e Fonseca. 

Venceu o Benfica por 1-0, com golo de Carlos Pereira, mas o Freamunde deu réplica condigna valorizando o espectáculo.
... Mais tarde, já o capitão da equipa encarnada, Malta da Silva, havia recebido das mãos do Vice Presidente da Câmara, a taça "António da Silva Alves", num ambiente acalorado, foi servido, na "Quinta do Monte", um primoroso copo d'água. Marcaram presença os atletas das duas formações e respectivos dirigentes, várias personalidades da edilidade local e concelhia e outras individualidades.
Foi uma festa bonita, sem dúvida».


72/73 - Em Cima: Miguel, Ribeiro, Domingos "Faria", Albino, Justino "Guerra" e Alves
Em baixo: Martinho, SANTANA, Fernando Viana, Ernesto e Couto.

Em 73/74, Santana, pela quarta vez consecutiva, aceita de novo o cargo de timoneiro da "nau" azul, mas com contrato melhorado. A remuneração mensal passou a ser de 10.000$00.
No entanto, esteve "tremido" o acordo, pois, Santana, apenas desejava enveredar pela carreira de treinador. Tal desiderato não ia de encontro às pretensões dos dirigentes do Freamunde que o desejavam igualmente como jogador.


73/74 - Em Cima: Miguel, Júlio "Guerra", Luís Afonso, Domingos "Faria", Quim, João, Jacinto e Manuel "Frita"
Em baixo: Ribeiro, SANTANA, Justino "Guerra", Abel, Andrade, Pinto, Ernesto e Martinho.

Mas..., em 74/75, já a "revolução" havia chegado, também, ao futebol, Santana foi "pregar para outra freguesia", aliciado por um contrato extremamente vantajoso do ponto de vista financeiro. Pendurou definitivamente as chuteiras, passando a exercer apenas e só o cargo de timoneiro principal.
Sucedeu-lhe, no mandato de Agostinho Ferreira Leal, o vila-realense, Amaral, com as mesmas funções do seu antecessor: treinador/jogador.
Apenas por uma temporada. Santana regressava para a época 75/76. Estava de novo nas "suas quintas". Afinal, sempre era aqui que vivia... Gostava disto... Gostava do Clube... Nós gostávamos dele... E agradecemos-lhe por ter tomado essa decisão.


75/76 - Em cima: Manuel "Frita", José Maria Viana, Júlio "Guerra", Justino "Guerra", Luís Afonso, Alves, Jorge Regadas, Miguel e SANTANA (Treinador)
Em baixo: Martinho, Sacramento, Fernando Viana, Daniel Barbosa, Laurindo, Ernesto e Quim.

75/76 - SANTANA, na equipa de "Velhas Guardas" do Freamunde
Em cima: Fernando "Passareca", Zulmiro, Moreira, Albino "Loreira", Luís "Mirra", Joaquim Costa, Humberto, Henrique Costa e Alfredo "Careca".
Em baixo: António Andrade, SANTANA, Antonino, José Maria "do Talho", Alexandrino "Marrana", Vitorino e Arnaldo.


Mas o vil metal, sempre o vil metal!, voltou a falar mais alto e Santana deixou-se seduzir pelos encantos da "sereia" e rumou ao "mar" de Vila do Conde, a troco de muito, muito mais dinheiro. Para ser campeão pelo Rio Ave.
E por "fora" andou durante vários anos. Liderou, além dos vilacondenses, Régua, Leça, Paredes...
Até que, já na segunda volta do campeonato de 84/85, sob presidência de Francisco Ribeiro de Carvalho (Zeca, vítima dos fantasmas do passado, que tinham regressado e em força, viu-se despedido do comando técnico), Santana voltou a "pegar" na equipa, levando-a à discussão do título da 2ª Divisão Nacional, perdido no derradeiro encontro, em Paredes, jogo envolvido em enorme polémica. 


84/85 - Em cima: Armindo, Fangueiro, Jorge Regadas, Dé, Baptista e Guilherme
Em baixo: Américo, Cassanga, Pedro Taborda (filho de Guilherme), Lamas, Abel e Sacramento.

Tudo parecia um mar de rosas, mas não. Nova época, problemas antigos. Com Armando Teles Menezes de novo ao leme da directoria, acabou o estado de graça de Santana. As "coisas" não estavam a correr bem, ondas de conflito que não amainavam, e, a poucas jornadas do fim, rolaram cabeças. No comando técnico houve troca de Santanas: Joaquim deu lugar a Abílio, ex-treinador de Moreirense e Joane.
Um "emissário" trouxe-lhe a notícia do despedimento. Assim mesmo! Consideravam-no ultrapassado, improdutivo... A dignidade obrigou-o a prescindir dos "direitos" e desligou-se do clube. Foi, surpreendentemente, para o "rival" Lixa. Para ser campeão de série. É verdade! Afinal, onde estava a... improdutividade?
Curiosamente, o Freamunde, com o empate a uma bola alcançado no "Carvalhal", ante o Ermesinde, no derradeiro jogo, posicionou-se logo a seguir, também ascendendo a divisão superior.
Em suma: Joaquim Santana subiu duas equipas na mesma temporada. É obra!


85/86

Santana voltou ao Régua para, aí, terminar a carreira de treinador.
Santana, sempre de olho nos novos talentos que iam surgindo, lutou, também como orientador (até à sua primeira saída do clube azul e branco),  pela propaganda e melhoria técnica do futebol juvenil do Sport Clube de Freamunde, criando uma "escola" de fazer inveja. 


72/73 - Equipa de Juvenis do Freamunde sob orientação de SANTANA
Em Cima: Lobo, Abílio Viana, António "Fifa", João Costa, Jorge Regadas e Moura
Em baixo: Velhinha, Laurindo, Dias, Sacramento e Armando Lobo.

Santana, "raposa" astuta, remodelou a vinha e os "cachos" amadureceram rapidamente. Lançou precocemente às "feras", sem pestanejar, jovens com dezasseis e dezassete anos. Andrade, Sacramento, Jorge Regadas, Laurindo..., foram alguns a quem, tal como o pedreiro, limou-lhes arestas mas não conseguiu, a este ou àquele, limpar-lhes a cabeça.
Da sua vida privada, das suas aventuras extra-futebol poucos tiveram acesso. Talvez só Humberto e Ernesto. Santana gostava de privar com Humberto e de conversar com Ernesto sobre temas nada ingénuos, ainda antes do 25 de Abril de 1974.
Santana, aos  53 anos de idade, foi derrotado no jogo da vida. Uma luta desigual, durante três meses, à qual não pôde resistir.
Santana, já era um dos "nossos". Tinha assentada arraiais nesta terra em 1970, e por cá ficou a morar durante dezoito anos. 
A notícia, a frio, da sua morte, cruel mas nem por isso inesperada - sabíamos que estava gravemente adoentado -, deixou-nos, mesmo assim, chocados, sem palavras.
Os freamundenses despediram-se do amigo em silêncio. Em silêncio que falava por si e comovia.
O corpo, acompanhado por grande multidão a pé, até à saída da Vila, foi a sepultar no cemitério do S. L. e Benfica, em Lisboa. 



Fotos de "Cherina", publicadas no jornal "Fredemundus"

Santana saiu do nosso convívio, mas não da nossa lembrança, nem da recordação da sociedade freamundense que o saberá venerar. Sempre.