quarta-feira, 26 de setembro de 2018

D. MERCEDES BARROS

Dª. MERCEDES AUGUSTA CARNEIRO GOMES DE BARROS

(27-12-1880/14-10-1951)


Dª Mercedes Barros

Natural de Freamunde, destacou-se desde muito jovem no desempenho oficial do ensino primário.
Aberto o apetite para um melhor conhecimento desta ilustre personalidade, algumas notas alusivas à sua biografia:
O início de funções deu-se na escola das meninas de Figueiró; depois radicou-se definitivamente na terra que a viu nascer.
Filha de José António da Silva Gomes e de Dª. Luíza Maria Carneiro de Vilhena Abreu e Lima, zelosos e eficientes professores primários desta freguesia, naturais, respectivamente,  de Midons e Santa Eulália de Rio Covo, concelho de Barcelos,  desposou o boticário Manuel Augusto Pinto de Barros, proprietário da antiga Farmácia Central (hoje Farmácia Barros), filho de José Pinto de Barros e de Rosalina Augusta Chaves Ferreira Velho, tendo-lhe dado dois filhos: Jaime e Cândido.



Antiga Farmácia Central, na Rua  que iria ter o nome de D. Mercedes Barros

Mulher, das poucas, que a condição social e sexual não condenou à diferença, com direito a auto determinação, que não foi submissa, reservada e... calada. Que "exigiu". Mulher que não nasceu apenas para dar à luz, signa de quase todas as outras e que não raras vezes morriam durante o parto.
Feroz lutadora, combatente persistente ao insucesso escolar, numa terra, e país, onde o analfabetismo reinava, (1) «em 1914 principiou a leccionar, no edifício da Escola feminina, cursos públicos e gratuitos para ambos os sexos durante o tempo de Inverno, ou seja: 7 meses» - a água mole acabou por furar a pedra dura...), viveu alheada (?), dizem, da política, deixando essa "actividade" para o seu marido, mas sempre atenta às injustiças sociais.
(1) Fonte: Jornal "O Progresso de Paços de Ferreira"
«Piedosa, dum carácter humano extraordinário, solidária e fraterna, acudiu às necessidades mais clamorosas do povo miserável e ignorante, protegeu obras de beneficência, e foi educadora terna dos seus filhos e de centenas de instruendos. De antigas alunas, ainda hoje vêem a lume as memórias da querida e estimada professora. De alguns olhos  lágrimas quentes de amor e saudade». "in Gazeta de Paços de Ferreira: Martins, Casimiro, 10-4-1952, pág.11».


Ao fundo, a escadaria da sua residência por onde entravam as crianças que leccionava

De temperamento dócil e melancólico, extremamente devota, honesta no proceder, duma inexcedível modéstia, absolutamente despida de vaidades, muito afável - nunca se exasperava ou perdia a paciência -, amante da música clássica e da leitura, ocupações predilectas, com algum fundamento convincente alvitrou-se ser ela a inspiradora, primeiro das récitas, por volta de 1907, e depois do teatro infantil, no 19 de Março, data do aniversário da ASMF.


Associação Socorros Mútuos Freamundense

Em 1922, saiu-se a "Troupe Infantil", com as peças "A Feiticeira", "A Lição" e "Criadas d'Hoje", ensaiadas pela distinta professora, apaixonada cultora da arte de representar.
Também dos interessantes festejos relativos à inauguração das Escolas da Rua do Comércio, em 1931, as posteriormente denominadas "Escolas das Meninas", escreveu a propósito o correspondente dum jornal regionalista: «... durante a interessante festa, um grupo de escolares dos dois sexos deliciou os ouvintes com alguns recitativos, canções e trechos literários, para o bom êxito dos quais muito concorreram os inteligentes professores, D. Mercedes Barros e José António Gaspar Pereira».


Escolas das meninas, na Rua do comércio

Foi assim a vida de D. Mercedes Barros. Norteou-a sempre o amor ao próximo, com o sorriso e a boa disposição que lhe eram peculiares.
Atingida por doença incurável, a sua saúde foi lentamente abalada. "Atirada" para o leito, sem se poder deslocar, foi obrigada, cedo, a abandonar a sua cátreda, as crianças. Após terrível sofrimento, faleceu, em paz, a 14 de Outubro de 1951, com 70 anos de idade, deixando unânime simpatia pela doçura de carácter e pela invulgar cultura que possuía.
D. Mercedes morreu. As nossas gentes, contudo, jamais deixaram cair sobre ELA a pedra do esquecimento. Ao prestar-lhe sucessivas homenagens, Freamunde - a sua Terra - nada mais fez que cumprir um dever de gratidão.
No dia 19 de Março de 1952, dia de festa pelo 61º aniversário da fundação da ASMF e de homenagem à memória da benquista professora, por vários oradores foi dissertada a importância da escola primária, «embrião de toda a actividade na terra e do saber dos homens», reportando-se à mãe e grande educadora que foi D. Mercedes Barros, «a verdadeira mestra no cultivar de inteligências, conselheira amiga em horas de desdita, autêntica heroína no longo calvário do seu sofrimento».
Citando Gil Aires, «merecida homenagem, dívida dos filhos de Freamunde, que a Direcção da Associação marcou com o descerramento do seu retrato na galeria de valores daquela prestimosa Instituição».


Prof. Gil Aires dissertando sobre D. Mercedes Barros

Em 1952, incluída no Dia de Portugal, 10 de Junho, a gerência da Cantina Escolar de Freamunde dedicou-lhe brilhante tributo, pelo incentivo e auxílio à sua criação.


Ao fundo, a antiga Cantina Escolar

No final da sessão solene, presidida pelo Eng. Ribeiro do Rosário, foram descerradas placas que dão o nome de D. Mercedes Barros à artéria que vai de Santo António a Leigal.
D. Mercedes Barros, a primeira mulher (A única até hoje, creio), a primeira figura pública a quem foi atribuído nome de rua em Freamunde.


Começa aqui a Rua D. Mercedes Barros

Sem favor, foi louvada e agraciada pelo Governo da Nação com a honrosa Medalha do Grau de Cavaleiro da Ordem de Instrução Pública. Uma honra para a classe. Uma honra para FREAMUNDE.


SAUDAÇÃO
(Nicho Poético - Fredemundus 1986)

Por terras de Freamunde caminhei
...Tempos lindos da minha mocidade!
A vida me sorria e, em verdade,
Razão do meu viver lá encontrei.

Em cada casa, um coração amigo,
Cada pessoa, um rosto sorridente,
Nas crianças, em contacto permanente,
Pedaços d'alma que eu guardei comigo.

Homenagem sincera eu vou prestar
A quem tanto carinho tinha a dar...
A alma invulgar que raro aparece:

D. MERCEDES BARROS - Livro aberto
Que toda a gente soube ler de perto,
No coração esculpiu... e não esquece!

Berta Amaral

domingo, 23 de setembro de 2018

PROFESSOR ALBINO FERREIRA DE MATOS

ALBINO FERREIRA DE MATOS

(18-5-1863 / 24-9-1918)


Prof. Albino Ferreira de Matos (Colecção particular de Joaquim Pinto)
Natural da freguesia de S. Pedro da Raimonda, filho natural de Delfina da Silva Moura, Albino de Matos foi um dos primeiros seis professores habilitados para o ensino primário elementar e complementar pela Escola Normal do Porto, em 1885, e legalmente matriculado como leccionista de instrução secundária.


Registo de baptismo de Albino Ferreira de Matos (Arquivo Central do Registo Civil do Porto)

«Sendo o professor primário o "braço armado do progresso", num país de iletrados, com uma taxa de analfabetismo a rondar os 80%, tanto a monarquia constitucional como a república esperaram que a escola transformasse os "brutos" habitantes de Portugal em cidadãos virtuosos e exemplares "In História de Portugal (Círculo de Leitores), MATTOSO, José».
Avançado no tempo, tolerante, pedagogo, mas de personalidade vincada, de forte consciência cívica, movido por uma astúcia e uma inteligência brilhantes, alheou-se das questiúnculas partidárias - mesmo director (?) e articulista do jornal "Echo de Paredes", supostamente de tendência republicana, cuja publicação terminou em Abril de 1895 - concentrando-se no exercício da sua actividade profissional, iniciada numa escola de província, Paredes, inserida no Círculo Escolar de Penafiel, onde iria leccionar cerca de dez anos, sendo unanimemente considerado "zeloso e ilustrado".
De um livro editado pelo Dr. Joaquim Manuel Fernandes de Carvalho, perante uma dissertação de mestrado, «...o Professor Albino de Matos, deixa de lado o ensino tradicional e crente na modernidade pedagógica, parte do princípio que a criança não deve apenas olhar e escutar, mas agir e participar elaborando o seu próprio discurso, o seu próprio saber. Promove uma educação que tenha em conta o desenvolvimento de atitudes e valores indispensáveis a uma sociedade, cuja intervenção se pretende consciente e responsável».
No "Jornal de Paços de Ferreira", pesquisamos e extraímos respigos de um artigo datado de 16 de Maio de 1895: «... Esta escola que há nove annos é dirigida pelo nosso conterrâneo e amigo Snr. Albino Ferreira de Mattos, e que já conta 41 approvações em exames elementares, entre os quais há muitas distinções (...) devido, incontestavelmente, a actividade, zêlo e inteligência d'aquele nosso amigo e illustrado professor que a dirige.
Por acaso assistimos aos exames d'alguns d'estes meninos e não nos podemos furtar a dizer que elles se distinguem entre os demais pela precisão e rapidez com que respondiam aos srns. Examinadores, mostrando assim que o seu professor lhes fez comprehender o que estudaram deixando de seguir essa desgraçada rotineira de fazer do cérebro das creanças um armazém de palavras que ellas reproduzem inconscientemente. Aceite o nosso amigo e snr. Mattos o nosso parabem, bem como os seus discípulos approvados.
Aos habitantes de Paredes também não podemos deixar de lhes dar os parabens por terem à frente da escola complementar da sede do concelho um professor que sabe desempenhar a altura dos espinhosos e diffíceis deveres do seu cargo».
Como quase sempre os grandes empreendimentos morrem com as primeiras dificuldades, numa louvável dedicação pelos interesses da classe a que pertencia, indubitavelmente sem protecção, oprimida e mal remunerada, alvitrou ainda em 1895, numa atitude digna de verdadeiro altruísmo, a necessidade de fundação d'uma Associação que promovesse o bem estar do professorado primário.
Pôs-se à chuva e sabia que ia molhar-se mas estava preparado para tudo.
Não demorou a ser nomeado director, desde 1896, da Escola Complementar de Paredes, vila que lhe concedeu, nesse mesmo ano, a presidência da Associação de Socorros Mútuos, com estatutos por ele elaborados e aprovados.
Assíduo frequentador de reuniões e conferências de classe, era um dos habituais delegados aos congressos do professorado primário que de tempos em tempos se reuniam no Porto.
Albino de Matos, foi transferido da cadeira de Castelões de Cepeda, Paredes, em Setembro de 1896, para a escola régia de Freamunde, que estava vaga pelo falecimento do padre António Marques de Carvalho.
Não demorou três meses (Dezembro de 1896) para, junto da Câmara Municipal, tentar a criação dum curso nocturno do sexo masculino. Combatente do analfabetismo atroz e persistente lutador pela melhoria das condições de ensino nesta terra, numa reunião com os pais dos alunos - conforme se pode ler numa das páginas do "Jornal de Paços de Ferreira" de 25 de Dezembro de 1896 - «...fez notar a deficiência do mobiliário escolar, tanto no que diz respeito à sua péssima construção como ao número de alumnos que comporta, uns 18 apenas, sendo elles actualmente 94. Incidiu ainda na necessidade de mandar construir uma mobília em condições.
Sem verba da Câmara, organizou uma comissão, presidida por António Ferreira Leão de Moura, que por meio de subscrição, dentro e fora da freguesia, possibilitasse, no mais curto espaço de tempo, a concretização dos seus anseios.
A soma da colecta importou em 63$940 réis, sendo as maiores ofertas as de Fernando Sousa Ribeiro (2$500 réis) e Alexandrino Chaves, António Leão Ferreira de Moura e Ilydio Gomes da Costa Torres, todos com 2$000 réis.
Decorria o mês de Março de 1897 quando foram construídas 18 carteiras».
Onde?
Em Maio de 1900, é louvado pelos bons serviços pelo Conselho Superior de Instrução Pública - "In Diário do Governo, número 104 de 10 de Maio de 1900".


Elisa da Costa Torres (Colecção particular de Joaquim Pinto)

Em 1904, perde-se de amores por Elisa da Costa Torres, com quem iria contrair matrimónio, filha natural de Rufina Ribeiro Nunes. Elisa era viúva de José Luís Affonso, nascido em Valença do Minho, consagrado relojoeiro, com anterior estabelecimento na Rua da Firmeza, nº 37, da cidade do Porto, e que em Julho de 1899 fizera chegar a revolução industrial ao concelho de Paços de Ferreira, requerendo, à Câmara, licença para estabelecer na freguesia de Freamunde, lugar do Calvário, dentro da sua propriedade denominada "Quinta dos Balaes", uma indústria de moagem de farinhas de milho e serragem de madeiras - a quem dera o nome de "Elisa", numa clara homenagem a sua esposa -, empregando uma máquina com caldeira a vapor de alta pressão, dois moinhos e uma serra horizontal.
É de crer, pois, que, com o equipamento legado, estavam encontradas as condições necessárias para a resolução em definitivo da carência de material escolar.


Fonte: Jornal de Paços de Ferreira

Novo ciclo se abriria. A indústria do mobiliário iria emergir, sobretudo o escolar.
Tornou-se mestre de muitos jovens na arte de trabalhar a madeira: António Pereira da Costa, Abílio Pacheco de Barros, Adelino Correia...


Palacete da "quinta dos Balaes", no lugar do Calvário (Colecção particular de Joaquim Pinto)

Sem perder a ideia de renovação metodológica deste tipo de mobiliário, o pioneiro Albino de Matos fazia equipar um sem número da salas de aula desta país com carteiras, caixas métricas, sólidos geométricos, sólidos cristalográficos, transferidores, compassos, réguas, mapas, esferas...


Fonte: Albino de Matos P. & Barros, Ldª. extracto do Catálogo de Móveis e Material Escolar, 3ª Edição, 1929

A perfeição e qualidade dos seus produtos, a novidade do mobiliário didáctico, proporcionaram-lhe o primeiro prémio na Exposição de Higiene (1907).
Em 1910, já em plena República (os ventos eram favoráveis), o génio empresarial investe a sua experiência pedagógica na refulgente indústria do material escolar, construindo as célebres carteiras com tampo semi articulado, contadores digitais, colecção de sólidos...
O Professor Albino de Matos era uma personalidade multifacetada. Imiscuído na actividade mutualista, por experiência própria, mostrou-se verdadeiramente interessado no crescimento da Associação de Socorros Mútuos Freamundense, da qual foi secretário da Assembleia Geral em 1897 e presidente da mesma Assembleia em 1898.


ASMF (Colecção particular de Joaquim Pinto)

Morreu pelas 18,00 horas do dia 24 de Setembro de 1918, com 55 anos, já na condição de professor oficial aposentado, vítima de tuberculose pulmonar, mais conhecida por febre espanhola, epidemia que causou, num espaço de poucos meses, dezenas de milhares de mortos no nosso país.
O pioneirismo, a integridade, a inteligência, a capacidade de defesa das suas ideias na valorização do ensino, permitiram-lhe ganhar, com todo o mérito e glória, um lugar de destaque na história dos grandes homens que passaram por Freamunde.
Em Maio de 1983, durante as comemorações do cinquentenário de elevação de Freamunde a Vila, a comissão promotora deliberou, sem favor, atribuir o nome de uma das principais artérias de Freamunde ao Professor Albino de Matos - principia na Rua do Comércio e termina na "Fonte dos Moleiros".


Descerramento de placa toponímica por D. Braselina Matos (filha) e Dr. Fernando Vasconcelos (neto) 



segunda-feira, 20 de agosto de 2018

ANTÓNIO PEREIRA DA COSTA

ANTÓNIO PEREIRA DA COSTA

(9-9-1888/28-8-1966)




António Pereira da Costa, filho de Teodoro Pereira Gomes e Ana Rosa de Jesus, nasceu na freguesia de Freamunde no dia 9 de Setembro de 1888.
Seus avós paternos, António Pereira da Rocha, célebre comprador e vendedor de objectos antigos, mais conhecido por António Pereira "do Calvário", falecido, com avançada idade, no dia 11 de Março de 1902, e Leonor Nogueira Nunes.
A propósito da vida desta ilustre personalidade, encontrei há tempos, nos abandonados aposentos do genro, Fernando Santos,  exemplar de biografia "trabalhada" por alguém e que realçava a figura do grande criador da indústria de marcenaria nesta terra e arredores, parte dela já referenciada pelo Dr. Joaquim Manuel Fernandes de Carvalho, perante uma dissertação de mestrado, no livro por si editado "A indústria de mobiliário em Paços de Ferreira - O caso da fábrica Albino de Matos, Pereiras & Barros, Ldª".

«... Filho de um casal de gente simples e boa, mas que havia herdado aquela austeridade caldeada na luta pela existência, que repartia entre um campo e uma alfaiataria o seu labor quotidiano, tinha o "Toninho" sete anos apenas ( o sol da vida mal tinha despontado), quando começou a ajudar a família no amanho de umas terras que tomaram de arrendamento na freguesia de Ferreira. 
Por essa altura falecia Ana Rosa de Jesus, e o seu coraçãozito tenro de idade era assolado logo no despertar da infância pela dura tempestade da perda da mulher sublime que era sua mãe.
Aos dez anos quis seu pai, Teodoro Pereira Gomes, agora casado em segundas núpcias com Maria Joaquina Lopes Ferreira Velho, fazê-lo seminarista, para que mais tarde se tornasse sacerdote e, deste modo, lhe assegurar o futuro. A princípio nenhuma reacção lhe ocorreu. Mas quando ambos foram a Lustosa consultar o pároco da freguesia, mais tarde bispo do Porto, Reverendo António Barbosa de Leão, e este lhe fez ver a agra encosta das responsabilidades clericais, António rapidamente respondeu que não aceitava a vida do sacerdócio. O seu "mundo" teria de ser outro. Qualquer profissão lhe servia, menos a de sapateiro. E com doze anos lá se foi para Sobrosa, Paredes, aprender a arte de marceneiro na oficina do grande mestre da arte, Júlio Barbosa Correia da Fonseca.
Serrar, moldar, conceber coisas prodigiosas da madeira seria, doravante, a máxima preocupação na carreira que acabava de abraçar.
Bom aluno, reteve sem dificuldade os ensinamentos mais preciosos.
Durante catorze anos trabalhou António Pereira da Costa em Sobrosa, não abandonando o mestre e amigo de tantas horas de labuta agora doente e senil.
Após a sua morte (1914),  com vinte e seis anos regressa definitivamente a Freamunde, por esse tempo uma terra apagada, rural, sem o menor reflexo de indústria, sobretudo no campo da marcenaria, época agitada e pouco propícia a negócios estáveis.  Com as poupanças, cerca de 200$00 (sobras dos 200 réis que diariamente ganhou),  monta uma oficina no lugar do Calvário. Um pequeno recinto, mas que se adaptava perfeitamente às exigências de quem principiava com tão pouco capital.
Fruto de um namorico que já vinha de Sobrosa, em 1915 casa-se com Adelaide de Sousa e Castro, dessa mesmo freguesia natural.

António Pereira da Costa e esposa

Foi então que no espírito do grande industrial de Freamunde, artista de fino gosto, começou a esboçar-se a ideia da primeira fábrica de serração e marcenaria, em parceria com o seu irmão, Joaquim Pereira da Costa, que no Porto tinha frequentado a Escola de Belas-Artes onde adquiriu um curso de desenho, e Abílio Pacheco de Barros, seu primo, entalhador e natural da freguesia de Figueiró, regressado de uma aventura no Brasil.
O projecto poderia ser arrojado, mas, mesmo assim, surge a Sociedade Pereiras & Barros, Ldª. que, de imediato, inicia a construção, agora na Rua do Comércio, de novas instalações, como refere o jornal "Progresso de Paços de Ferreira" na sua edição do dia 13 de Junho de 1920:

"...Já se acha devidamente instalada em casa própria, na Rua do Comércio, desta povoação (Freamunde) a nova oficina de Mobiliário e Material Escolar, sob a firma Pereiras, Barros e Companhia Ldª.
A sua inauguração realizar-se-á no próximo Domingo, 13 do corrente, dia de feira anual de Santo António"

Pouco tempo depois, em 1921, morre o irmão, primeiro contratempo surgido inesperadamente e que o abalou profundamente. Esta fatalidade caída assim abruptamente sobre uma organização de pouca idade e, para piorar a situação, segura no mínimo do seu valor, teve o trágico condão de abrir uma nova fenda no futuro de António Pereira da Costa.

Joaquim Pereira da Costa

Mal reposto da perda do irmão, um voraz incêndio destrói-lhe, em 23-3-1923, a fábrica, implantada nos terrenos onde, mais tarde, seriam edificadas as denominadas "escolas amarelas" que, conjuntamente com Abílio Pacheco de Barros, tinha construído.

Abílio Pacheco de Barros

In "O Progresso de Paços de Ferreira", Ano XXI, nº 1080 de 25 de Março de 1923.
(...) Manifestou-se hoje n'esta freguesia, cerca das 3 horas, um pavoroso incêndio, na importante Fábrica de Serração, Moagem e Mobiliário, da Firma Pereiras, Barros e Companhia Limitada, destruindo-a por completo.
As labaredas do incêndio alcançaram grande altura e iluminaram distintamente toda a freguesia.
Apenas se pôde salvar o cofre, escrituração e o mobiliário de escritório.
A fábrica apenas estava segura em cento e dez mil escudos, nas companhias Phoenix e Royal, sendo os prejuízos importantes, pois ardeu uma grande encomenda de móveis de grande valor que estava para seguir o seu destino.

Ainda no mesmo ano de 1923, com o dinheiro do seguro e algumas poupanças, entram para sócios da recém criada Sociedade Comercial Albino de Matos, Sucessores, Limitada, com a cota de 68 contos cada, passando a adoptar, a partir de então, o nome de Albino de Matos, Pereiras e Barros, Ldª, agora com 28 sócios, sendo-lhe atribuído artº 5º do contrato de sociedade:

Fábrica Albino de Matos, Pereiras & Barros, Ldª

(...) A gerência social com dispensa de caução, fica a cargo dos sócios António Pereira da Costa e José Maria Ferreira de Matos (irmão do falecido professor Albino de Matos), ao sócio Abílio Pacheco de Barros compete as funções de encarregado da secção de máquinas, madeiras e marcenaria (...).
Parágrafo 1º: Fica, contudo, estipulado que compete exclusivamente ao sócio António Pereira da Costa a direcção técnica da fábrica, bem como os serviços de arrecadação e expedição.

Estávamos em 1924 e esta sociedade que parecia um projecto audaz para António Pereira da Costa, torna-se um novo pesadelo em virtude de uma série de incidentes com António Alves Pereira de Castro, o "Padre Castro" como era conhecido e que veio marcar uma gerência forte num período de grande desenvolvimento industrial, que terminaram com o encerramento temporário da fábrica, isto cerca de dois anos volvidos após a sua abertura. António Pereira da Costa seria exonerado em Assembleia Geral de 21-11-1926.
Afinal, o grande marceneiro, o artista fecundo ficava de novo só depois de ter esbanjado grande parte de capital emprestado no litígio que sustentou com a firma cessante. Se desejava vencer teria que desprezar mentores e capitalistas, burocratas e políticos, todos, em suma, os que só serviam para lhe impor peias e nenhuma ajuda lhe traziam.
E o grande industrial cada vez mais pobre, com uma dívida de 50.000$00, lá se foi, desta vez só (e tendo que lutar com uma concorrência de capitais organizados) a criar o seu mundo de arte concebido segundo as suas ideias e o seu pensamento.
E ao contrário do que seria de esperar, António Pereira da Costa apareceu cada vez mais enrijecido pela fé nos seus próprios dotes e disposto a vencer a batalha da existência.
António Pereira da Costa volta de novo ao lugar do Calvário para recomeçar as suas actividades num pobre barracão. O seu "capital" constava de nove dúzias de tábuas emprestadas e três metros cúbicos de madeira a crédito adquiridos na firma Rodrigo Ferreira & Filho, Porto.
António Pereira da Costa recuperava lentamente a dignidade de industrial.
Para vencer precisou de anular, até, os seus grandes reveses, impondo-se por um merecimento sem paralelo.
A par do mobiliário escolar, a genial criação de mobiliário doméstico e de escritório da Fábrica do Calvário de António Pereira da Costa, que, com auxílio de mestres formados na Escola Soares dos Reis, concebeu todo um conjunto de móveis vulgarmente denominados por "reclame".



Conforme refere o "Comércio do Porto" em 27 de Março de 1929:
(...) Trabalhando em sua arte, desde a idade de 12 anos, António Pereira da Costa é o técnico competentíssimo, o mestre de grande experiência para quem aquela arte não tem segredos, e que só à sua conta tem preparado e educado mais de 300 operários, hoje artistas perfeitos na arte de marcenaria.


O material saído das suas mãos e da sua fábrica é tão perfeito, que lhe tem merecido os prémios da Exposição do Palácio de Cristal (Feira do Porto), do Rio de Janeiro, Exposição do 2º Congresso Pedagógico do Ensino Secundário Oficial de Viseu (1928), com o 1º prémio, medalha de ouro e diploma de honra.


Num armazém por si construído por volta de 1937, junto à capela de Santo António, tornou-se no primeiro expositor de móveis em Freamunde e no concelho.


Em 1953, António Pereira da Costa, em escritura lavrada no cartório Notarial de Paços de Ferreira, constitui entre Joaquim Ribeiro, Fernando Eduardo de Sousa Delgado da Silva Ribeiro dos Santos, Zeferina Pereira de Castro e Felisbina Pereira de Castro (genros e filhas solteiras) uma sociedade por cotas de responsabilidade limitada, adoptando o nome de "António Pereira da Costa, Limitada".
Pensava ele que só assim o seu nome permaneceria na sua fábrica eternamente.
António Pereira da Costa atravessou durante a sua vida, por vezes, situações tão angustiantes que, a não ser a astúcia que possuía, o teriam vitimado.
E uma delas ocorreu na festa da Páscoa de 1918, quando se viu forçado a receber em sua casa o Compasso, dispondo de meia dúzia de cadeiras e uma cama de ferro, isto depois de ter vendido todo o mobiliário que tinha para fazer jus a compromissos inadiáveis.
Tanta coragem e tanta honestidade não eram muito frequentes nesses tempos (nos de agora, então!!!), nem foi sempre o apanágio principal de muitos ricos que por lá abundavam lançados no caminho do triunfo, às vezes mais por golpes de artifícios malabares, ou inconfessáveis aliciamentos da própria consciência do que por louvável iniciativa do seu próprio esforço».


Depois foi o que se sabe: Esta fábrica, cujo peso na industrialização do concelho e na formação de pessoal especializado foi importante para a formação do "cluster" do mobiliário que existe actualmente, encerrou as portas em 2001 por passividade e ineficiência da gestão e pouca adaptação dos serviços/produtos às novas exigências.

António Pereira da Costa, o homem que tinha um grande e farfalhudo bigode que contornava o lábio superior com prolongamento, personalidade forte e enérgica, repudiava os "medricas".
Pioneiro de um ramo industrial que projectou Freamunde e o concelho, foi um espírito brioso no fabrico do mobiliário. Todo o êxito alcançado foi fruto do seu excepcional instinto empresarial, que o tornou poderoso e célebre.
Coração generoso, e com pendor especial para dar uma reviravolta estrutural a Freamunde no seu todo, batalhou junto dos poderes municipais por aquilo que mingava nas franjas do seu berço terreno, chegando mesmo, a expensas suas, na elaboração de um projecto capaz de maravilhas, com "risco" do multifacetado artista Salvador "Santa Marta". Insistia constantemente na necessidade de uma reforma de mentalidade, de visão urbanística, condição para o progresso e transformação do centro da vila.
O processo correu os gabinetes dos poderes autárquicos. A questão parecia irreversível, fizeram-se planos de pormenor, mas os ares administrativos não eram lá muito favoráveis...
Serenada a "euforia", sobrou-lhe tempo para atenções redobradas à Associação de Socorros Mútuos Freamundense, a necessitar urgentemente das receitas do teatro, quase parado desde meados de quarenta.
Fernando Santos, director de um grupo cénico portuense, foi, por ele, atraído a Freamunde para representações nesta vila, sobretudo no 19 de Março. Gostou disto, gostou de uma das suas filhas, Brasinda, com quem casou, e por cá ficou. Ainda bem.
Exemplo de vida, de cidadania, devotou-se com alma e coração ao associativismo desta terra, às suas realizações, lúdicas, festivas, culturais... Tudo o movia.
Membro, em 1928, da "Grande Comissão Organizadora da Corporação de Bombeiros de Freamunde", foi no seio da ASMF que mais se notabilizou. Tesoureiro e presidente da direcção entre 1939 e 1952, foram, neste último ano, a expensas próprias e com o produto da venda de rifas e das festas por si promovidas, levadas a cabo importantes obras no edifício da benemérita associação: restauração, cedência de água para instalações sanitárias, oferta de mobiliário de consultório médico...
Parte do terreno, que lhe cabia, onde foram implantadas as "Escolas Amarelas", da Rua do Comércio, inauguradas no dia 2 de Outubro de 1938 (ele mesmo fez parte da comissão promotora das festas alusivas as acontecimento), foi cedido gratuitamente à Junta de Freguesia, principal interessada no projecto.
Devoto do "Condestável" D. Nuno Álvares Pereira, o respeito pela tradição fê-lo membro das Festas ao Mártir, como Presidente, em dois mandatos, pelo menos, (1936 e 1944). Integrou ainda a denominada "Comissão de Honra" das "Sebastianas" durante uma década (1954 a 1963).


Como político, serviu a Autarquia, na condição de vogal da Comissão Administrativa, entre 1942 a 1946.
As horas de ócio eram passadas à noite, no convívio do "Recreativo", Clube que serviu em diversas ocasiões nos cargos de Presidente do Conselho Fiscal e Direcção.

CLUBE RECREATIVO. A.P. Costa, sentado, ao fundo, reconhece-se pelo inconfundível bigode
Pelo Natal de 1954, foi sujeito, na Casa de Saúde da Avenida, no Porto, a uma melindrosa cirurgia. Já restabelecido, o respeitável industrial foi recebido, nas imediações do seu lar, pelos amigos e gente anónima desta terra, sempre gratos a quem lhes fez bem, ao som de estrondoso foguetório, em sinal de regozijo. A própria comunicação regional fez manchete do acontecimento.

Ao lado da ASMF, casa onde António Pereira Costa morou

A doença acabou definitivamente com a sua resistência, vindo a falecer na tarde de 28 de Agosto de 1966 na sua residência, no Alto da Feira. Contava 78 anos de idade.

Por alturas das comemorações de elevação de Freamunde a Vila (1983), a Junta de Freguesia em conjugação com a Comissão de Toponímia deliberaram atribuir, muito justamente, o nome de uma das artérias a António Pereira da Costa - principia no Largo da Feira e termina no cruzamento de Panelas, para o Ciclo Preparatório.

Gil Aires, na edição de 1 de Outubro de 1952 da "Gazeta de Paços de Ferreira", rubrica "Ares de Freamunde - Perfil da Semana", fotografou-o assim:
«Pobrezita!
Do olho, focinho abaixo, rola uma lágrima de saudade.
Pobre "Chica", triste, encostada a um canto, espera.
Olhem, agora, como salta dengosa, com um "salero" que já fica mal à sua idade. É que ele já chegou. Pressente-o, e não o confunde no meio dos seus operários, no seio dos quais o seu traje o iguala. Sim, que, à semana em nada difere a sua vestimenta da do mais modesto dos seus empregados. Mas, leitor amigo, vê-lhe a cerimónia nos dias festivos, opa lavrada, abrindo caminho ao andor da sua da sua devoção, e não te parecerá o mesmo.
Se te falo no seu característico bigode (à Sloan), ficas desenhando a sua figura; aquele bigode, que nos dias de má disposição, toma aspecto aterrador.
Amigo da sua Terra, bairrista, sonhou projectos, concretizados numa tela que a sua vista entristece os Freamundenses.
Desilusão! O mundo dos homens é o mundo dos enganos! Enganaram-no, e não lhe falem nos seus antigos planos, se não querem vê-lo irritado, e de punhos cerrados falar com todas as letras. A verdade cabe em todo o lugar e não há quem não lhe dê razão. Freamunde fica tão longe...
Infeliz nos seus treinos de condução (nem sempre as paredes eram seguras), não fica contente quando um dos seus carros sai a arejar, pois que o grande só nos dias de festa mostra o brilho dos seus cromados, e, nessa altura, também ele vai.
Devoto da lavoura, tem uma predilecção especialíssima pela estratégia da sua propriedade de Talhô, onde... regala a vista, mirando os campos de milho ou centeio.
Tem uma "pinga" afinadíssima, que os amigos, em "conjunto" muitas e muitas vezes gostam de saborear. Previno-te, leitor amigo, de que o tempo está prestes a chegar; e também podes entrar na roda, que, com isso, só dás alegria a este homem que só tem por brasão o trabalho». 

Portão de entrada para a quinta, que ainda resiste

sexta-feira, 9 de março de 2018

"SANTA MARTA"

SALVADOR FERNANDES DA SILVA "SANTA MARTA"

1875/29-8-1952




Resultado de uma investigação lenta e minuciosa de um naipe de documentos, das memórias frescas de alguns familiares, de conversas informais, é possível apresentar uma pequena mas interessante biografia do "artista", da figura apaixonante, que Freamunde carinhosamente adoptou: Salvador Fernandes da Silva, mais conhecido pelo nome de "Santa Marta", dada a naturalidade (Portuzelo - orago: Santa Marta -, Viana do Castelo) de seu pai, António Fernandes da Silva, membro de família conservadora, arreigada a tradições religiosas, proprietário e senhor de pequena fortuna amealhada no país que Pedro Álvares Cabral descobriu.


António Fernandes da Silva "Santa Marta"

No regresso de terras de Vera Cruz, em navio a vapor, o "brasileiro" viu-se aflito com uma tempestade marítima que o levou a implorar ajuda divina, prometendo, caso chegasse em salvamento ao Porto - cidade onde atracou -, casar com uma rapariga de origens modestas e pobre de rendimentos. Assim aconteceu.
Iria conhecer Rosa Eudócia de Jesus, também conhecida por Rosa Maria de Pinho, natural de Castro d'Aire - Viseu, servente na pensão onde se havia instalado. Do namoro ao casamento foi um ápice.
Do enlace, nasceram, na freguesia do Bonfim, os filhos Manuel, Amândia, Francisco e o "nosso" Salvador, que cresceram e viveram num estilo de vida faustoso, que conseguia sonhar qualquer um, onde nada lhes faltava. Manuel e Salvador acabariam por estudar Belas Artes, curso concluído com superior distinção.
Com a morte prematura e repentina do pai, aos 42 anos, quando este se preparava para sair, em passeio, com os filhos, Salvador casa-se com Emília Ferreira da Silva, natural de S. Paio de Casais - Lousada, que trabalhava na Cidade Invicta, rapariguinha meiga, dócil, carinhosa e bondosa. Passaram, então, a morar na Rua 24 de Agosto.


Emília Ferreira da Silva

Os filhos, em número de seis, não se fizeram esperar: Zulmira, Ludovina, António, Maria José, Manuel e Maria de Lurdes.
Entretanto, a esposa adoeceu e os médicos indicaram-lhe, como terapia para a recuperação, os ares saudáveis da aldeia. Imprevistos numa vida aparentemente fácil, despreocupada.
Recordemos então o périplo: primeiro assentaram arraiais em Lousada, seguiu-se Santa Eulália da Ordem e por fim Freamunde.
Calvário, S. Francisco, Leigal (duas vezes) e Igreja, foram lugares onde alugaram residência.
Freamunde terá sido, certamente, o chão onde redobrou inspiração, onde trilhou fases marcantes, onde deixou escola, prestígio e consagração. A Terra, era um sítio de oportunidades, a imagem do progresso, do desenvolvimento, atraindo muitas pessoas em busca de trabalho e de algo mais.
Salvador caiu como sopa na mel. Leal para quem o rodeava, expansivo, folgazão, não foi difícil encontrar amigos por aqui. O destino tem destas coisas!
Salvador "Santa Marta": escultor (cultivou um estilo próprio, trabalhando preferencialmente o gesso. Executou com perfeição peças em retábulos, imagens de culto); pintor (a pintura a óleo sobre tela, veludo e cetim, expressava a natureza morta, motivos de caça e quadros de flores, uma das direcções fundamentais do estilo barroco. Nas abóbadas e cúpulas das Igrejas, a Apoteose dos Santos, a vida de Cristo, os Sacramentos da Eucaristia... A temática era, pois, fundamentalmente devota, como devoto ele era, dado que muitas das suas pinturas adquiriram conotações simbólicas de tipo religioso mas nunca profanas, sequer mitológicas); decorador, dourador, cenógrafo, caracterizador... Ele tocou várias artes, e portanto reuniram-se vontades na mesma pessoa, coisa rara nos dias de hoje.


Escultura em gesso


Natureza morta



Natureza morta

O teatro era um bocado de si, o escaparate das artes plásticas.
A função sócio-cultural nesse tempo - sobretudo no pós Grande Guerra de 1914/1918 - continuava limitada. Freamunde, porém, era um povo de "representadores". Faltava, isso sim, quem lhes administrasse conhecimentos através da encenação.
"Santa Marta", espírito profundamente observador e crítico, era pau para toda a colher.
Em épocas de alguma instabilidade - entre 1924 e 1938 - "rivalizou" com Leopoldo Pontes Saraiva na direcção técnica da "Troupe". Havia-lhe tomado o gosto, ainda no Porto, no seio do Grupo Cénico "Os Simples", juntamente com o irmão Manuel.
Algumas das peças por "Santa Marta" ensaiadas: "Nossa Senhora da Bonança"; "O Amor Constipado"; "Páscoa Florida"; "Castanha e Companhia"; Os Dois Pretos"; "Rosas de Portugal"...
Esforçou-se por manter um elenco de qualidade em que num naipe de experimentados se integraram aqueles que iniciavam os seu primeiros passos.
No teatro - disseram-no sem receio - também deixou bem assinalada a sua passagem, marcando com forte personalidade, um lugar de honra, sobejamente merecido.
Altruísta, no intervalo dos espectáculos pintava quadros que eram leiloados. O produto da venda revertia em favor dos cofres da benemérita Associação dos Socorros Mútuos Freamundense.


ASMF

Salvador "Santa Marta" legou-nos inúmeros trabalhos artísticos. O estudo do arranjo urbanístico, viário e ambiental do Centro Cívico, desejo ardente do pioneiro da indústria de marcenaria, António Pereira da Costa, "cego" de entusiasmo, que não se furtara a custear tal plano, mas que nunca chegou a ser executado, mesmo adquirindo visibilidade inédita (a edilidade pacense andava sempre de "nariz torcido" com os interesses dos freamundenses), começou a ser planeado com base num risco de "Santa Marta".
Dele, igualmente - conforme pesquisa de Vieira Dinis -, «...volátil trabalho de restauro no altar-mor da capela da Trindade - Meixomil, aí por 1945. Ele achara enigmática a composição sacra do Grande Mistério e entendeu substituí-lo pela simbologia presente: por terceira pessoa divina o Espírito Santo , representado por columbina alva a romper para o Céu».
O trabalho de conservação e restauro tem as suas técnicas e também os seus segredos.
«O meu pai "dava vida" às peças em restauro - exultava a filha Maria de Lurdes, na "juventude" dos seus 96 anos. Ele corrigia deformações provocadas por factores ambientais ou mão humana, utilizando métodos próprios. E foi a intervenção da mão humana que permitiu a perda de exemplares maravilhosos de arte sacra, na Igreja Matriz de Freamunde, já na década de sessenta, se não estou em erro. Foram "safados", do tecto, quadros de rara beleza como a imagem de Nossa Senhora da Assunção e a criação de modelos únicos: o cordeiro, a hóstia, o cálice...».
Mesmo extra-muros, bem longe, muito mérito do seu trabalho, quer por pureza de Arte quer por criatividade pessoal, pois a sua extraordinária habilidade permitia-lhe plasmar qualquer conceito e ideia.
Por exemplo, foram dele as pinturas, que ainda perduram, do tecto da Igreja de Tuías, com os 12 apóstolos. Trabalhos demorados também em quase todas as freguesias do Marco de Canavezes e Vila Real. Curiosa a forma como se auto-denominava nas facturas que passava aos clientes: Mestre de obras diplomado.
Apesar das suas raízes físicas estarem no Porto, foi em Freamunde que expressou toda a gama dos seus recursos culturais e artísticos, mesmo nunca tendo valorizado a promoção do seu trabalho. A  Terra, porém, ficou mais rica e está-lhe eternamente grata.
No entanto, a melhor forma de homenagearmos "Santa Marta" não é fazer o seu louvor mas publicar as suas obras, riquíssimas, e dá-las a conhecer aos mais distraídos.
Como? Juntá-las e expô-las numa casa aberta à cidade, aos freamundenses, aos amantes da cultura. É que podemos correr o risco de quase tudo o que "Santa Marta" nos legou não sirva para nada ou para muito pouco.
Com dignidade, portou-se a direcção do Clube Recreativo ao nomeá-lo seu sócio honorário.
Depois de enviuvar, Salvador Fernandes da Silva escolheu para companheira, Alexandrina Machado de Sousa. O matrimónio foi contraído no dia 18 de Dezembro de 1946.
Viria a falecer, vítima de doença prolongada, no dia 29 de Agosto de 1952.
Pelas comemorações do Cinquentenário da Vila de Freamunde, a Comissão de Toponímica atribuiu o seu nome a uma das artérias: Rua Pintor Santa Marta - começa na Rua Brigadeiro Alves de Sousa e acaba em Freamunde de Cima, junto ao Largo Costa Torres.


Descerramento de lápide que deu nome a rua